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"Vida longa aos dias de sol!"

domingo, 4 de dezembro de 2016

PELO ESCURO DOS OLHOS TEUS



"Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar

Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar” [1]

É comum ouvirmos frases românticas de amor associadas a olhos e olhares. O sujeito enamorado percebe nos olhos da pessoa amada a segurança de ser correspondido ou a ameaça da perda, decifrados ali, na ausência de qualquer palavra. Olhos se mostram meios poderosos de comunicação, onde a mensagem se transmite mesmo sem querer.

Pesquisadores americanos estudam há anos a comunicação involuntária pelos sinais da face. O professor Paul Ekman [2] da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), pesquisador e consultor desde políticos a animadores dos estúdios de desenhos Pixar, foi capaz de catalogar quarenta e três tipos de movimentos musculares da face e associá-los a sentimentos de medo, angustia, felicidade, perda, entre outros.  Segundo seus estudos, o sujeito registra sentimentos via micro sinais musculares em sua face, mesmo quando deseja aparentar algo diferente. Sentimentos disfarçados por palavras em fala ou discurso, se revelam  imediatamente fantasiosos por seu rosto, que de alguma forma revela algo diferente.

O que pode parecer algo restrito aos apaixonados, mentirosos ou às necessárias adaptações à vida cerimoniosa em sociedade, requer uma análise mais atenta. Mesmo em tempos de liberação sexual, é comum ouvirmos relatos de casais que se relacionam sexualmente às escuras. Parece que para eles, mesmo no momento dito mais íntimo, é necessário proteger seus olhos de ver ou de ser visto, que mistérios além do corpo nu poderiam ser revelados pelo entre olhar?

O olhar em sua potência é companheiro do sujeito há longa data, posterior à audição que está presente ainda no pre-nascimento mas, diferentemente desta, é capaz também de ser ativo e se fazer comunicar. O olhar deste cedo está a decifrar e ser decifrado.

Entretanto, esse decifrar imagético segue caminhos próprios. Pesquisas neurológicas recentes, indicam que a imagem e a linguagem transitam por áreas diferentes do cérebro humano e que quando uma imagem é decifrada pela linguagem, algo se perde.

A fim de tentar se verificar esta hipótese, foi realizado um teste [3] onde era apresentada uma imagem ao sujeito testado, que uma vez memorizada, deveria ser reconhecida e selecionada em um outro grupo. Verificou-se que quando era solicitado que a pessoa, antes de buscar a réplica da imagem original, descrevesse em palavras a imagem memorizada, ela tinha reduzida sua taxa de acerto se comparada ao cenário onde o sujeito testado, não traduzia a imagem em palavras antes da busca. Algo se perdia pelo processo de decodificação entre imagem e palavra e depois no caminho inverso, palavra e imagem.

O dito popular, anteriormente aos cientistas, já nos dava pistas desse caminho. É comum ouvirmos em momentos especialmente tocantes alguém dizer “não tenho palavras para expressar”, onde o sujeito falante reconhece que qualquer tentativa de verbalização seria redutora. Ou ainda na cena final do filme “O Poderoso Chefão III” quando o personagem vivido pelo ator Al Pacino nos oferece alguns segundos de um silêncio desesperado ao constatar a morte de sua filha, não há palavra que seja suficiente.

A linguagem tão importante na constituição do sujeito, de alguma forma castra a experiência em sua tradução. A imagem traduzida toma outro lugar, nem sempre tão próximo a experiência original.

A castração da experiência pela palavra em alguns casos pode ser limitante e redutora, mas de outra forma também protege quem vê e a vive. Uma experiência comunicada em palavras pode ressignificar a sua história original e também proteger contra algo da má experiência. Exemplo disso, é o recurso terapêutico de vivências e relatos de pessoas vítimas de um estresse pós traumático. A expressão do mesmo em palavras escritas ou faladas é vivida como algo redutor e ressignificador do trauma original. Na vida cotidiana é comum nos depararmos com o caso clássico do sujeito abandonado em uma relação amorosa, capaz de ocupar os ouvidos dos amigos mais próximos com infinitas repetições da sua mesma história de desilusão. De alguma forma, o repetir em palavras torna a experiência, pouco a pouco tolerável e, em algum tempo depois, diferente e até assimilável.

Se como pessoa adulta ainda nos surpreendemos com o poder das relações com outros e suas consequências quando ausentes do códigos e defesas da fala, o que dizer então da criança ainda pequena, carente desta alternativa, que vive suas experiências em carne viva?

Na ausência da palavra, a criança no seu primeiro ano de vida, sobrevive às custas de seus recursos anteriores à linguagem. O olhar, tato, sensações, sons e vozes, naquele momento são seus instrumentos de interação com o mundo interior e exterior, que no início ainda parecem confundidos.

Absolutamente depende de outros, a criança pouco a pouco aprende a decodificar, ainda sem o atalho da palavra, necessidades, desejos e sentimentos próprios e posteriormente dos outros que a cercam.

Cenas de crianças em interação com seus cuidadores, mãe ou quem venha exercer este papel, nos faz perceber que há algo mais no sorriso ou olhar da criança com seu par. Ainda não distraída pela linguagem a criança se abastece do que consegue capturar pelos seus meios e assim interage. Cuidador e criança, quando em sintonia, são capazes de longas conversas sem nenhuma troca de palavras.

O psicanalista René Spitz em seus estudos [4] com crianças órfãs, num cenário de abundância de demandantes e severas limitações de recursos humanos, pôde verificar que mesmo as cuidadas tecnicamente com recursos hospitalares, muitas vezes não eram capazes de sobreviver. As necessidades de subsistência atendidas com alimentação, limpeza e acompanhamento médico, não eram suficientes.  Na ausência de recursos e na consequente falta do afeto amoroso do cuidador como um chamado à vida, a criança pouco a pouco se fechava em si própria e por fim morria.

O afeto amoroso pelo olhar, tato, cheiro, voz do cuidador de alguma forma seduz o bebê à vida, oferecendo um caminho sustentado e decodificado a quem está ameaçado e dependente num lugar estranho a si.

O bebê abastece-se do que captura por seu olhar ainda primitivo e não educado pela palavra. Neste lugar, sem as distrações e conforto da linguagem, está exposto à experiência bruta, que se por um lado é genuína, por outro, ainda não é passível dos recursos atenuantes da simbolização. Percebemos as pistas desta experiência quando o bebê em um colo é capaz de dormir tranqüilamente, enquanto que em outros, agita-se e chora incomodado por algo que não sabemos como nomear. A seu modo, ele é capaz de perceber o que recebe e com seus parcos recursos rejeitar ou não o que lhe é oferecido.

Entretanto, como absolutamente dependente, o bebê quando exposto à experiência bruta e dolorosa tem poucas alternativas de saída. Muitas vezes seu algoz é também sua única possibilidade ou mesmo esperança de socorro, mas e que dizer quando ele não está disponível para salvá-lo?

O cuidador da criança abatido por algo que o debilita, uma doença grave, um luto severo ou qualquer outro impedimento que o impossibilite de exercer sua função amorosa junto ao bebê, pode expô-lo à situação do intolerável. Aquele pequeno ser, ainda com poucos meios, quando apresentado ao sentimento bruto e sem cortes do sofrimento do seu cuidador, experimenta algo do vazio.

Não há disfarce, os recursos da vida em sociedade largamente utilizados para uma interação equilibrada e aparentemente saudável na relação entre adultos, não se prestam ao bebê. Camuflagens da linguagem ou do trato social não são acessíveis a ele, que se limita a experiência bruta da relação com a mãe ou seu cuidador.

A mãe precária pelo seu sofrimento intenso é percebida pelo bebê sem atenuantes. A expressão da face, a frieza do toque ou o seu olhar sem brilho, escuro, apresentam a experiência da quase morte ao bebê. Tragado por esta, tentará ainda reclamar por uma mudança a quem o embala, mas muitas vezes essa alternativa não está disponível ao sujeito abatido pela dor extrema. Nesse caso, não há rota de fuga, todos caminhos levam àquela mãe aparentemente funcional e viva aos olhos dos que a cercam, mas que ao seu filho se mostra em sua essência pura, morta [5]. Ao bebê, ainda monocórdio em suas possibilidades de interação, cabe somente a experiência bruta, por pior que ela possa se apresentar.

A vítima busca em seu agressor a saída, mas do outro lado não há resposta possível. O sujeito enlutado vive a morte de algo em si e é somente isso que ele pode responder, independentemente do chamado e de quem o chama.

O pedido de escape repetidamente feito e não atendido a alguém incapaz de fazê-lo, direciona o solicitante à única alternativa que se apresenta: repetir mesma nota que escuta. Tal qual metrônomos em ritmos diferentes, que quando distribuídos por um plano com movimento livre, acabam por se alinhar magicamente em um mesmo ritmo temporal, o bebê responde com mortificação ao seu cuidador mortificado.

Esta posição de alguma forma gera pertencimento e lugar a alguém que como absolutamente vulnerável não tem opção de escolha. A quase morte ainda é uma alternativa à morte efetiva, no entanto a experiência agônica é por demais dolorosa e cobra seu preço.

O tempo passa e o bebê, amadurecendo, é apresentado a outras  alternativas, interações e caminhos que por fim abrem possibilidades de escape da posição inicial, mas o sofrimento anterior deixa suas marcas. É preciso se livrar daquela parte sem vida, proprietária e causadora de tanta dor e seguir em frente. Como um soldado que na esperança de sobreviver abdica de um membro necrosado, a criança cinde algo de si e investe no que lhe sobra.

É comum conhecer pessoas, que passaram por este tipo de experiência, operativas quando adultos. Muitos inclusive com destaque e uma certa super adaptação à sociedade, apresentando habilidades ditas especiais nos seus principais talentos. Agem como alguém que, tendo dificuldades na visão, acaba por hiper sensibilizar sua audição como recurso compensatório à limitação original.

O melhor desenvolvimento de recursos funcionais, mascaram um sujeito marcado por um severo sofrimento anterior. A alternativa de sobrevivência viabilizou sua sobrevida, no entanto, a capa funcional desenvolvida, apesar de sua aparente eficiência, serve principalmente como camuflagem protetora de um mundo interno absolutamente arcaico e vulnerável.[6]

A super adaptação funcional monopoliza e consome a vida do sujeito, já que fora desta  arena ele estaria novamente exposto ao terror agônico, seu companheiro de toda vida. Viver às custas de engenhosas limitações também causa esforço e sofrimento em uma existência cada vez mais restrita.[7] De qualquer forma, parece melhor ficar aprisionado às claras, do que a ameaça de se perder às escuras dos primeiros tempos.

Entretanto, não há defesa intransponível. O curso da vida reserva eventos inesperados ou de complexidade superior, que pressionam e expõem limites e fragilidades. Neste momento, aquele sujeito sobrevivente e aparentemente adaptado, como parede oca, se desmorona ao primeiro sopro de um vento um pouco mais forte, revelando novamente a criança desprotegida, vulnerável e quase morta.


Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista
marcospaimcfonteles@gmail.com






[1]  Trecho de “Pela Luz dos Olhos Teus”, T. Jobim.

[2]  “Facial Action Coding System”, P. Ekman e W. V. Friesen.

[3]  “Thoughts beyond Words: When Language Overshadows Insight” J. W. Schooler, S. Ohlsson e K. Brooks.

[4]  “O Primeiro Ano de Vida”, R. A. Spitz.

[5]  O psicanalista A. Green explora especialmente esse tema no seu texto “A Mãe Morta” de 1980.

[6]  “Só na presença dessa mãe suficientemente boa, pode a criança iniciar um processo de desenvolvimento pessoal e real. Se a maternagem não for boa o suficiente, a criança torna-se um acumulado de reações à violação; o self verdadeiro da criança não consegue formar-se, ou permanece oculto por trás de um falso self que a um só tempo quer evitar e compactuar com as bofetadas do mundo.” (Extraído do texto “O relacionamento inicial entre uma mãe e seu bebê”, de D. W. Winnicott de 1960)

[7] “toda forma de psicopatologia, seja extrema ou sutil (e universal), pode ser pensada como representação de uma forma de autolimitação inconsciente da capacidade de vivenciar estar vivo enquanto ser humano. A limitação da capacidade de esta vivo pode se manifestar de inúmeras formas, até mesmo com a constrição da amplitude e da profundidade de sentimentos, pensamentos e sensações corporais, restrição da vida onírica e de reverie, um senso de irrealidade nas relações consigo próprio e com outras pessoas, ou com o comprometimento da capacidade de brincar, de imaginar, de usar símbolos verbais e não verbais para criar e ou representar a própria experiência. Não só aceitamos. mas adotamos essas e outras limitações da nossa capacidade de estar vivo, quando a possibilidade de estar plenamente vivo como ser humano implica uma forma de dor psíquica que tememos não suportar. Ao adotarmos essas formas de desvitalização psíquica, sacrificamos parte de nós mesmos em troca da sobrevivência do todo, mas que o ‘todo' consumiu grande dose de vitalidade no processo.” (Extraído do texto “Sobre a arte da psicanálise” de T. H. Ogden)

sábado, 23 de abril de 2016

INÚTIL NECESSÁRIO


Quando a razão moderna libertou o homem do divino e aterrou as questões de Deus, o mundo pareceu finalmente explicado, as lacunas ainda existentes, aos poucos seriam esclarecidas pela ciência. Tudo era somente uma questão de tempo, investimento e paciência. Estava próximo o mundo inteiramente domesticado, onde a ciência o explica e o dinheiro tudo viabiliza.

Neste cenário de aparente completude, em caminho oposto às chamadas ciências duras, a filosofia, as artes e a nascente psicanálise deram um passo adiante e adicionaram complexidade e graus de liberdade à equação aparentemente resolvida.

Neste contexto, questionando e desconstruindo o aparentemente pronto, o movimento pós-moderno buscou o outro lado de dogmas e modelos pré-formatados. A arte simplesmente seguiu sua vocação de ir além, tal como criança que se diverte ao desmontar seus brinquedos curiosa em conhecer os mistérios escondidos no avesso, o artista nos expõe a algo mais.

Os exemplos foram variados: a pintura abstrata; o free jazz; as performances artísticas; o cinema nouvelle vague e outras diversas formas de expressão deram um passo adiante. Parecia que a fronteira havia avançado um pouco mais longe e o controle mostrava-se novamente limitado.

A busca ao pós-moderno é cara e laboriosa. O trabalho de desconstruir exige um cuidadoso esforço de construção prévia, que na maioria das vezes não permite atalhos. Parece estranho o músico que emite sons dissonantes ou estridentes no free jazz, ao mesmo tempo ser capaz de tocar peças de difícil execução da música convencional, ou um pintor capaz de produzir quadros tecnicamente impecáveis preferir produzir manchas ou borrões aparentemente sem sentido.

A guitarra em chamas, antes tocada à exaustão pelo virtuoso, em muito pouco se parece ao objeto destruído pela criança raivosa. A obra que se apresenta essência e minimalista, apesar de semelhante, em nada se compara ao primitivo ou infantil. O trabalho do artista de vanguarda definitivamente não é obra de criança ou preguiçosos.

A obra finalizada posiciona-se como algo sem função ou aplicação definida, é o inútil que abre espaço ao desconhecido, inesperado e instiga o expectador. Cabe a ele deixar-se seduzir e também se expor. Longe de um caminho simples ou definido, apresenta-se sem contorno, um percurso por trilhas sempre desconhecidas.

É necessário ao expectador também trabalhar, não se trata somente de receber ou contemplar de forma passiva, é preciso esforço e sustento ao sujeito que a obra instiga e desequilibra.

Perceber o estranho e expor-se ao vazio que destrói conceitos e sentidos preconcebidos, nos reapresenta à ignorância e enfraquece redes de segurança cuidadosamente elaboradas ao longo de nossa própria história. A vertigem do vazio força o movimento e a expansão, mas o combustível da angústia por vezes é intolerável e defesas dificultam ou mesmo paralisam o movimento.

Defesas enfraquecidas abrem flancos por onde antes o crescimento era bloqueado, mesmo a que se faz vitoriosa no embate com o que a questiona, é impactada. Quando instigada, ela se faz necessariamente mais forte e custosa, causando sofrimento, algumas vezes, bem superior ao que quer proteger. No limite, a dor leva o sujeito a buscar ajuda, também aí a arte cumpre sua missão.

No entanto, nem sempre é assim. Artista, obra e expectadores estão inseridos em uma sociedade, que deseja ser explicada pela razão e realizável pelo dinheiro, sem falhas ou ineficiências. Não sem motivo, agentes estão sempre atentos às necessidades que possam gerar oportunidades e ganhos.

A arte pós-moderna em suas digressões, por vezes parece hermética, abrindo espaço à sua digestão por especialistas que decodificam seus mistérios e preenchem vazios. O incompreensível e sem sentido incomoda e requer esforço do expectador, mais fácil se defender e creditá-la a algo restrito a alguns iniciados.

O capital vende o conforto e pertencimento aos que podem pagar pela digestão terceirizada e o visto de sujeito, se apresenta como atalho desviante de angústias e continente de escapamentos. Se posso pagar, por que não usar as facilidades disponíveis?

A produção artística também pode ser otimizada: parece não haver sentido em investir esforço na construção de algo singular a ser seguidamente desconstruído. A eficiência industrial permite ganhos que podem e devem ser capturados. O trabalho oportunista, mascarado pela liberdade criativa e referendado por decodificadores habilitados e diretamente interessados, cortam esforço e geram eficiência e produzem arte consumível. 

A desconstrução também interessa à lógica mercantilista, remunerar e reforçar a substituição sem limites, soa como música aos ideais de um mercado em eterna expansão. A forma mais eficaz de crescer é simplesmente descartar o obsoleto e abrir espaço à troca pelo novo.

Oferta de conforto e pertencimento, mercado em expansão permanente e geração de lucro a agentes e produtores, satisfazem com folga as leis de oferta e demanda do mercado. Gentilmente a produção artística pós-moderna é adotada por agentes econômicos, escapa de si e transfigura-se, transformando obra em produto, experiência em entretenimento.

O expectador, anestesiado, agradece e como sujeito movido pelo desejo, confunde o ideal, que preencheria seu vazio, com o produto de consumo, adiando angústias, mas o aparente conforto não se sustenta e demanda cada vez mais analgésicos. O inútil necessário cobra sua ausência.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)
marcospaimcfonteles@gmail.com

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

SUJEITO GENÉRICO


Parece fácil definir o modelo de sucesso para uma carreira no mundo corporativo, são infinitos livros de autoajuda e revistas de negócios indicando o caminho. Basta seguir o padrão: inovador, ágil, flexível, com facilidade para o trabalho em equipe, dedicado e com o único defeito de ser um pouco perfeccionista. Programas de recrutamento e entrevistas parecem um desfile de iguais, mesmas respostas, mesmo discurso, exaustivamente treinado e ensaiado.

Como poderia ser diferente? O ser humano tem a habilidade única de se adaptar a diferentes tipos de comportamento e ambiente, nada mais natural em um cenário competitivo seguir o modelo dito vencedor. Para que buscar ou arriscar alternativas quando o padrão já está ali definido e com instruções passo-a-passo? Os mais talentosos conseguem inclusive incorporar essas características como naturais, mesmo que às vezes estejam bem distantes de suas originais, assumindo um novo personagem - "mas só para o trabalho e carreira" - imaginam eles.

O aprendizado abre oportunidades e viabiliza o desenvolvimento de novas habilidades, portanto vale investir e buscar o modelo campeão. O mercado também está aí para ajudar e transforma-se em uma máquina capaz de produzir profissionais cada vez mais eficientes, produtivos e parecidos. Eles são mais fáceis e econômicos para administrar, especificidades ou características individuais consomem energia, investimentos à singularidade e não viabilizam os tão necessários benefícios da economia de escala.

Homens ou mulheres, não faz diferença, brilho no olho, cabelo alinhado, inglês fluente, MBA, calça caqui ou azul marinho, camisa social esporte, cinto e está completo o padrão andrógino do casual corporativo. Um caminhar atento no horário de almoço pelas principais avenidas empresariais da cidade e estarão todos lá, variações sobre um mesmo tema.

Ótimo então, todos ganham. As pessoas tornam-se mais preparadas, desenvolvem novas habilidades e comportamentos, e as empresas ganham produtividade e eficiência. Segue o ciclo e o processo praticamente se industrializa, atingindo o melhor grau de eficácia na curva de tempo, esforço e resultado.

No entanto, a adaptação gentilmente forçada a um modelo externo e definido por terceiros, ocasionalmente expõe sinais de desgate e desconforto ao ator convidado. Mesmo bonito e elegante, o salto alto também cobra seu preço após algumas horas de festa. O que dizer de um processo que pode consumir anos?

Depois de tanto investimento o esforço não pode ser perdido. "Qualidade de vida!" proclamam os clássicos programas motivacionais. Eles chegam com estímulos diversos: treinamentos, viagens, esportes, voluntariado, arte. Aos protagonistas ainda cabe um investimento a mais via carreira, promoções, bônus, remuneração variável e stock options, que com certeza encerrarão a questão. O espetáculo não pode parar!

Amansado por analgésicos, reconhecimento e premiação, não há problema em continuar. Haverão sempre férias, momentos em casa, cada vez maior e mais elegante, e todo conforto que o último bônus permitiu comprar. Não há problema, afinal o herói corporativo, aquele lá do início: inovador, ágil, flexível, e com o pequeno defeito de ser um pouco perfeccionista; é só instrumento de carreira, usado sabiamente a fim de agilizar o caminho ao sucesso. Passado o crachá pela roleta de saída tudo volta ao original, sem problemas.

Estudo recentes indicam que não é bem assim. A chamada psicologia positiva americana, tem pesquisado, entre outros, o impacto de posturas corporais e atitudes ensaiadas na bioquímica cerebral e seus efeitos na alteração de estados de humor ou sensações. Em artigo(*) recente, os pesquisadores de psicologia social das universidades Columbia e Harvard nos EUA indicam, por exemplo, que uma postura corporal, de braços erguidos em sinal de vitória, é capaz de desencadear processos internos, que no fim geram um sentimento genuíno de autoconfiança. Independente de ser somente uma simulação, os estímulos cerebrais reagem de forma semelhante a um fato realmente ocorrido.

O que então dizer de estar pelo menos oito horas por dia assumindo um personagem, com postura, pensamento e atitude ensaiados segundo um modelo predefinido. Ainda mais sendo prestigiado e premiado conforme sua maior aderência a este. Após algum tempo, parece pouco provável que esse personagem realmente fique restrito à sua aplicação profissional.

O personagem pré fabricado pouco a pouco assume a preponderância e o controle, de coadjuvante passa a protagonista e como tal assume seu papel dominante. Ator e personagem tornam-se um e o que em um primeiro momento era restrito ao ambiente profissional, ultrapassa fronteiras e ocupa novos terrenos.

O inverso também ocorre, buscando proteção contra o risco de invasão da persona corporativa à vida pessoal ou simplesmente cansado de suportar uma fantasia que não lhe cabe, o sujeito assume uma cópia às avessas, não fiel à si mesmo, mas simplesmente um negativo do modelo imposto, quase uma antítese ao vencedor adotado na vida profissional.

Positivo ou negativo, não há diferença, estão repetindo um modelo externo e padronizado conflitante à singularidade humana, onde o sujeito deixa de ser protagonista de sua própria história e é submetido, sem alternativa de escape, a um modelo ideal definido conforme o interesse de terceiros.

Em qualquer situação, com o tempo a estrutura não se sustenta, cedo ou tarde a pessoa esquecida por baixo das várias camadas sobrepostas manifesta-se pelo sofrimento psíquico ou físico, tanto faz.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)
marcospaimcfonteles@gmail.com



(*) Power Posing: Brief Nonverbal Displays Affect Neuroendocrine Levels and Risk Tolerance
Dana R. Carney*, Amy J.C. Cuddy**, and Andy J. Yap*
*Columbia University and **Harvard University
http://www.people.hbs.edu/acuddy/in%20press,%20carney,%20cuddy,%20&%20yap,%20psych%20science.pdf

sábado, 12 de dezembro de 2015

NÃO OLHE PRA FRENTE


Talvez venha da infância. Pequenos à procura de aprendizado, preenchendo lacunas da ignorância, fomos instruídos a completar faltas. Aprender a andar, falar, ler, escrever. Passo a passo completamos cada etapa, que já no instante seguinte nos coloca em movimento à próxima. Uma gangorra que por um breve instante nos mantém na altura máxima, mas que logo a seguir nos empurra novamente ao movimento.

Crescidos já é hora de trabalhar, hora de namorar, hora de casar, hora de ter filhos, netos, hora de não ter hora. Faça isso para obter aquilo. O passo seguinte puxa o passo atual, que por si só parece não existir. Tornamo-nos hábeis em estabelecer projetos de futuros cada vez mais sofisticados, belos e sedutores.  Fica fácil se apaixonar por projeções idealizadas e distantes da complexidade da vida cotidiana. Elas passam a justificar nossas ações e decisões diárias.

A vida transforma-se em uma escada que simplesmente nos leva ao próximo projeto de futuro, que uma vez atingido, nos encaminha imediatamente ao seguinte. Cada pequeno instante torna-se apenas degrau, sem significação ou função própria, somente ligadura entre passos anterior e posterior. Não existe desconectado. Degrau retirado de escada é verbo sem sujeito.

Invertidos, o presente que é, parece imaginado, e o futuro, ainda simples possibilidade, transveste-se de realidade e impõe-se ao presente. O que não existe toma do lugar do que é.

Caminhar sobre um presente vazio é trabalhoso, requer cuidados, cada passo é caro e inseguro, muito cansativo para quem tem toda uma vida pela frente. Melhor então ignorar, olhar para frente e sustentar-se no futuro. Ao aprendiz de equilibrista ensina-se: não olhe para baixo ou para fita, fixe-se no ponto à frente e simplesmente caminhe.

O equilíbrio instável estabelece-se e disfarça o que preferimos não perceber, dá conforto e permite descansar. Melhor agora, sem deter-se na realidade do dia a dia, se entorpecer na certeza de um futuro cuidadosamente delirado. Dias, semanas, anos se passam, tão rápido que percebemos somente quando já se foram e tornaram-se passado distante. Não há como enxergar o que não se pode ver. O olhar para o seguinte é cego ao atual.

No entanto, o futuro que sustenta não existe, é fantasia. É como pensamento que transcrito em palavras, perde sentido e se mostra outro. O planejado finalmente se apresenta, parece um pouco diferente, mas ajustes devem ser aceitos e até comemorados. Surpresas que colorem a vida, justificam alguns. Melhor ser rápido, se ajustar, eleger o próximo passo e se jogar ao próximo cipó. Tal qual Tarzan, é necessário manter-se em movimento, caso contrário tomba-se no vazio.

A vida segue até que o real, se impõe e surpreende com novas situações, muito diferentes do que antes fora planejado. O inesperado pode apresentar-se disfarçado por um rompimento, morte, acidente, divórcio, demissão, tanto faz. Aquele projeto de futuro cuidadosamente construído simplesmente desaparece, mas de fato ele nunca existiu. Não há equação possível a ser imposta ao caos que é resultado de infinitas variáveis combinadas no tempo e espaço, que quando sequenciadas formam o que nomeamos de vida.

O cipó se solta. O futuro deixa de sustentar o presente e cai-se no vazio. Presente dependente de futuro é só passagem, não é ponto de parada. Sustentar-se parece impossível ou por demais doloroso, melhor tentar religar. Como desistir do que custou tão caro? Quantos presentes de ontem, hoje passados, foram pagamento antecipado em nome de um futuro que agora não existe mais. Agimos como criança pequena, que desesperada tenta salvar seu castelo de areia invadido pelo mar.

Diante da perda não cabe atalho, somente luto. Se não, pouco a pouco e sem perceber, voltaremos a construir um novo e ainda mais belo castelo, logo ali onde a areia molhada é abundante, na beira do mar.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

domingo, 29 de novembro de 2015

SOBRE UM MAR DE CERTEZAS


Quando todas respostas estão ao alcance de um clique. Parece sem sentido ou mesmo antiquado sustentarmos perguntas sem respostas. Talvez somente nos tempos de Shakespeare houvesse tempo disponível a ser investido na sua clássica “Ser ou não ser?”.

Hoje são mais de 100 bilhões de buscas atendidas pelo Google mensalmente. Difícil imaginar quem respondia a toda essa avalanche de questionamentos nos longínquos tempos de antes do Google, ou AG. Limites de tempo e recursos, permitem-nos recordar que boa parte delas ficava sem resposta, ou ao menos, sem uma resposta firme.

Neste caso, só restava conviver com a incerteza, dúvida ou perguntas não respondidas, já que a pesquisa mais aprofundada demandava tempo e esforço. Pesquisar pressupõe a avaliação de diferentes pontos de vista, contradições e alternativas, não há pesquisa sem reflexão e trabalho. 

No buscador queremos respostas rápidas e objetivas: preto ou branco. Não temos mais paciência para questões demoradas, a primeira página já é o bastante. Quem se lembra da última vez que passou à segunda? As outras quase infinitas alternativas, tornam-se somente atestado de eficiência do algoritmo ou objeto decorativo de rodapé. O Google bem conhece nossos hábitos e sabe cobrar por isso, basta verificar sua tabela de preços para estar logo ali, na primeira página.

Parece que finalmente os limites de tempo e esforço foram superados e a resposta correta está disponível a todo tempo, a qualquer um, sem custo ou esforço de aquisição.

Sempre foi norma aos líderes e bem sucedidos demonstrarem firmeza e certeza. Ascenção e sucesso aos que rapidamente tomam suas decisões. Em tempos de acesso ilimitado à informação, dúvidas perdem de vez o sentido e somente se justificam aos fracos, indecisos ou burocratas analíticos. Vacilar, refletir transformam-se em sinais de debilidade injustificada. É imperativo se posicionar com opiniões claras e definidas. PT ou PSDB? Feminista ou machista? Comunista ou neoliberal? Carro ou bicicleta? Mariana ou Paris? 

Parece estranho, mas a principal habilidade que nos diferencia perante nossos vizinhos coabitantes deste planeta, é justamente o que neste momento aparentemente torna-se supérfluo, nossa capacidade de pensar, tomar consciência, refletir.

Atalhos que economizam esforço são por demais atraentes para serem deixados de lado e estão sempre presentes. Eles vencem limites aparentemente intransponíveis em um passado recente, quase como milagres da infinita capacidade humana. Não muito longe, a nascente cocaína também foi considerada uma droga milagrosa, capaz de criar super-humanos, rápidos, assertivos e com uma energia aparentemente inesgotável. Figuras notórias, entre elas o próprio Freud, recomendaram seu uso e prescrição. A história demonstrou logo depois, que o remédio milagroso também cobrava seu alto preço. Não foi diferente com outras drogas, pirâmides financeiras, jogos de azar, milagres econômicos, religiões salvadoras ou sistemas políticos grandiosos. Todos exemplos de atalhos que no seu devido tempo cobraram seu preço.

A facilidade acomoda e gera dependência, não é diferente no caso da ferramenta que hoje é nosso principal instrumento de inteligência auxiliar. A musculatura do pensamento também é dependente de exercício e quando pouco desafiada, sabe repousar.

Em diversos momentos da história humana, a reflexão também foi deixada de lado e o automatismo simplista se fez presente. Infelizmente também foram os períodos mais obscuros, onde o fascismo, fanatismo e outros, deixaram suas marcas. O idiota útil, seguidor não crítico de dogmas ou ritos, é capaz de cometer os piores atos ou simplesmente cumprir ordens ou normas predefinidas na lógica booleana do sim ou não. Quando a reflexão é adormecida, os resultados são sombrios. 

Na idade do conforto das réplicas imediatas, cabe buscar alternativas que nos coloquem novamente de frente ao inexplicável, ao sem sentido ou ao só sentido. Inominável mesmo ao oráculo das bilhões de respostas, a filosofia e as artes nos permitem novamente ser ignorantes e como tal também autores. A pergunta sem resposta atrai o pensamento, que sem destino definido pode caminhar por sua singularidade e nos fazer criadores, portanto humanos.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

MERITOCRACIA, CONSUMO E A FALTA


O modelo de mercado competitivo e globalizado, pressionou empresas à busca de competitividade e diferenciais a fim de manter sua posição, vis-à-vis novos competidores vindos de além mar. Neste cenário, perseguindo a alta performance que asseguraria sua sobrevivência, boa parte das companhias adotaram modelos de gestão baseados na meritocracia, estimulando a competição entre seus colaboradores e premiando resultados diferenciados.

Rapidamente o modelo transformou-se em uma verdade corporativa, proclamada e ratificada por analistas e gurus da administração. Empresas não aderentes foram taxadas de arcaicas ou pouco competitivas, sendo pressionadas à mudança ou perdendo valor.

A vitória desta técnica baseada na lógica de mercado, perante outros sistemas e utopias, institucionalizou o conceito onde segundo bases “iguais”, os resultados obtidos definem e justificam os vencedores. A responsabilidade da vitória não deve ser distribuída, mas ranqueada e com a distinção clara entre vencedores e perdedores. Os eleitos tem sua diferenciação autorizada, já que a mesma é considerada fruto do seu talento e esforço superiores aos demais.

Neste cenário, o mercado de consumo também transforma-se e o produto
deixa de ser mera ferramenta utilitária e transveste-se como troféu de premiação a vencedores, consolo ou instrumento de disfarce para derrotados. Certificados pelos resultados premiados na meritocracia e julgados pelo seu talento e esforço “comprovados”, os vencedores estão liberados a exibir seus troféus.

O produto se veste de ferramentas de design e conceito, onde sua simbologia ultrapassa em larga escala sua funcionalidade mecânica. Consumidores são chamados de fãs, obtendo pertencimento e lugar, chegando aos limites da idolatria à marca.

Mesmo institucionalizado, o modelo expõe suas vulnerabilidades. O produto como combustível narcísico ou analgésico à falta é precário, portanto não se sustenta e faz-se necessária a repetição. Este ciclo de consumo repetitivo atende às métricas de crescimento corporativo, fundamentais à sobrevivência do modelo meritocrático, estendendo sua validade ao limite.

À repetição, o produto se renova, a obsolescência programada pare novas versões que tiram o valor simbólico da versão anterior e forçam sua substituição. Mesmo sem sustentação possível, o ciclo se repete à exaustão.

Este circuito de disfarces aparentemente sem fim, é realimentado continuamente pela lógica mercantilista, que movimenta objetos e sujeitos conforme suas leis de oferta e demanda. No entanto, tanto vitoriosos quanto perdedores, tal qual faces de uma mesma moeda, não passam impunes e pagam o preço por figurar neste jogo sem perceber.

Sem perceber?

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

quinta-feira, 20 de março de 2014

TAL QUAL TELA DE CINEMA


Não conhecemos nem a nós mesmos, surpreendemo-nos ao longo da vida, com descobertas que em algum momento foram simplesmente esquecidas. Então, o que dizer deste ignorante de si, quando apaixonado por outro semelhante na sua falta? Apaixonamo-nos por quem? Nossos próprios reflexos, tal qual Narciso? Pelas projeções de nossos desejos, limitações, medos?

Tal como uma tela, o outro apresenta um filme projetado por nós mesmos. Sem perceber, aquilo que nos escapa à percepção consciente, pede espaço e se apresenta. Filme agradável, escolhido a dedo, selecionado entre as distrações da realidade, existe para dar espaço ao que já não cabe adormecido e pede lugar para se manifestar.

O objeto da paixão, como tela de cinema, segue e realiza o projeto do outro. Alimentado pelo olhar apaixonado, que vê o que ele mesmo projeta, se confunde com um filme que não é seu, se ilude como se fosse tela morta. Sujeito incerto que também não se conhece, agora pensa que ganha forma, simplicidade e finalmente: tradução. Como fita de cinema, agora tudo pode, é grandioso e sem limites. Fácil abdicar, por um momento, da difícil realidade de não se compreender.

Chega o tempo em que o outro aparece. No início a projeção da paixão é forte, quase matéria densa. A tela parece branca, ofuscada pela força da luz projetada,  sua cor e textura únicas e também capazes de projetar seu próprio filme, por um momento parecem não existir. Saturada pela projeção da paixão, parece superfície plana, passiva, objeto unicamente refletor do filme de outrem.

A vida vem e a realidade desvia a atenção. Projetor de cinema é máquina estática, pregada no chão, não desvia da tela e cumpre seu papel até o fim do filme. Nosso apaixonado não. Ao sujeito que agora se imagina completo, mais forte e desperto que se torna, parece pouco fixar-se a uma só tela. O foco estático e a intensidade do investimento necessários à projeção, parecem muito caros e por demais limitantes de oportunidades, que agora parecem infinitas ao super sujeito.

O outro, sem a luz forte, intensa e determinada, se mostra verdadeiro. Não é tela branca, sem riscos ou marcas, por isso reflete algo diferente do que recebe. Imprime sua marca no que vem do outro. Também não é só objeto refletor, tem brilho próprio. Não pode mais ser espelho fiel do que lhe é projetado, distorce o que recebe com suas marcas e interpretação, adiciona seu próprio conteúdo de sujeito também ativo.

O filme agora parece modificado, o olhar do sujeito apaixonado já não vê somente suas projeções. Agora, o outro tem seu próprio brilho e transforma o que recebe, gerando um novo filme, de cores diferentes e realidades contorcidas.

Cabe ao apaixonado, inicialmente sorridente e receptivo ao próprio espelho, mudar de posição.  Tal qual o amante da arte, aquela que transforma a realidade, em objetos cubistas, manchas multicolores ou desenhos abstratos, ele deve libertar-se do que não consegue ver e transcender no que consegue sentir.

O vivenciar do filme distorcido, colore a realidade e abre aoportunidade de se ver além, tal qual uma realidade alucinada e expandida. Neste mundo, o sentir é soberano sobre o pensar, o prazer ou a dor definirá o desejo de permanência ou extinção. Somente aí, se poderá descobrir se o que era paixão, foi capaz de se transformar em amor.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)