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Neste espaço você poderá conhecer algumas das minhas reflexões, que espero, possam de alguma forma estimular seu pensamento e divertir.

"Vida longa aos dias de sol!"

sábado, 12 de dezembro de 2015

NÃO OLHE PRA FRENTE


Talvez venha da infância. Pequenos à procura de aprendizado, preenchendo lacunas da ignorância, fomos instruídos a completar faltas. Aprender a andar, falar, ler, escrever. Passo a passo completamos cada etapa, que já no instante seguinte nos coloca em movimento à próxima. Uma gangorra que por um breve instante nos mantém na altura máxima, mas que logo a seguir nos empurra novamente ao movimento.

Crescidos já é hora de trabalhar, hora de namorar, hora de casar, hora de ter filhos, netos, hora de não ter hora. Faça isso para obter aquilo. O passo seguinte puxa o passo atual, que por si só parece não existir. Tornamo-nos hábeis em estabelecer projetos de futuros cada vez mais sofisticados, belos e sedutores.  Fica fácil se apaixonar por projeções idealizadas e distantes da complexidade da vida cotidiana. Elas passam a justificar nossas ações e decisões diárias.

A vida transforma-se em uma escada que simplesmente nos leva ao próximo projeto de futuro, que uma vez atingido, nos encaminha imediatamente ao seguinte. Cada pequeno instante torna-se apenas degrau, sem significação ou função própria, somente ligadura entre passos anterior e posterior. Não existe desconectado. Degrau retirado de escada é verbo sem sujeito.

Invertidos, o presente que é, parece imaginado, e o futuro, ainda simples possibilidade, transveste-se de realidade e impõe-se ao presente. O que não existe toma do lugar do que é.

Caminhar sobre um presente vazio é trabalhoso, requer cuidados, cada passo é caro e inseguro, muito cansativo para quem tem toda uma vida pela frente. Melhor então ignorar, olhar para frente e sustentar-se no futuro. Ao aprendiz de equilibrista ensina-se: não olhe para baixo ou para fita, fixe-se no ponto à frente e simplesmente caminhe.

O equilíbrio instável estabelece-se e disfarça o que preferimos não perceber, dá conforto e permite descansar. Melhor agora, sem deter-se na realidade do dia a dia, se entorpecer na certeza de um futuro cuidadosamente delirado. Dias, semanas, anos se passam, tão rápido que percebemos somente quando já se foram e tornaram-se passado distante. Não há como enxergar o que não se pode ver. O olhar para o seguinte é cego ao atual.

No entanto, o futuro que sustenta não existe, é fantasia. É como pensamento que transcrito em palavras, perde sentido e se mostra outro. O planejado finalmente se apresenta, parece um pouco diferente, mas ajustes devem ser aceitos e até comemorados. Surpresas que colorem a vida, justificam alguns. Melhor ser rápido, se ajustar, eleger o próximo passo e se jogar ao próximo cipó. Tal qual Tarzan, é necessário manter-se em movimento, caso contrário tomba-se no vazio.

A vida segue até que o real, se impõe e surpreende com novas situações, muito diferentes do que antes fora planejado. O inesperado pode apresentar-se disfarçado por um rompimento, morte, acidente, divórcio, demissão, tanto faz. Aquele projeto de futuro cuidadosamente construído simplesmente desaparece, mas de fato ele nunca existiu. Não há equação possível a ser imposta ao caos que é resultado de infinitas variáveis combinadas no tempo e espaço, que quando sequenciadas formam o que nomeamos de vida.

O cipó se solta. O futuro deixa de sustentar o presente e cai-se no vazio. Presente dependente de futuro é só passagem, não é ponto de parada. Sustentar-se parece impossível ou por demais doloroso, melhor tentar religar. Como desistir do que custou tão caro? Quantos presentes de ontem, hoje passados, foram pagamento antecipado em nome de um futuro que agora não existe mais. Agimos como criança pequena, que desesperada tenta salvar seu castelo de areia invadido pelo mar.

Diante da perda não cabe atalho, somente luto. Se não, pouco a pouco e sem perceber, voltaremos a construir um novo e ainda mais belo castelo, logo ali onde a areia molhada é abundante, na beira do mar.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

domingo, 29 de novembro de 2015

SOBRE UM MAR DE CERTEZAS


Quando todas respostas estão ao alcance de um clique. Parece sem sentido ou mesmo antiquado sustentarmos perguntas sem respostas. Talvez somente nos tempos de Shakespeare houvesse tempo disponível a ser investido na sua clássica “Ser ou não ser?”.

Hoje são mais de 100 bilhões de buscas atendidas pelo Google mensalmente. Difícil imaginar quem respondia a toda essa avalanche de questionamentos nos longínquos tempos de antes do Google, ou AG. Limites de tempo e recursos, permitem-nos recordar que boa parte delas ficava sem resposta, ou ao menos, sem uma resposta firme.

Neste caso, só restava conviver com a incerteza, dúvida ou perguntas não respondidas, já que a pesquisa mais aprofundada demandava tempo e esforço. Pesquisar pressupõe a avaliação de diferentes pontos de vista, contradições e alternativas, não há pesquisa sem reflexão e trabalho. 

No buscador queremos respostas rápidas e objetivas: preto ou branco. Não temos mais paciência para questões demoradas, a primeira página já é o bastante. Quem se lembra da última vez que passou à segunda? As outras quase infinitas alternativas, tornam-se somente atestado de eficiência do algoritmo ou objeto decorativo de rodapé. O Google bem conhece nossos hábitos e sabe cobrar por isso, basta verificar sua tabela de preços para estar logo ali, na primeira página.

Parece que finalmente os limites de tempo e esforço foram superados e a resposta correta está disponível a todo tempo, a qualquer um, sem custo ou esforço de aquisição.

Sempre foi norma aos líderes e bem sucedidos demonstrarem firmeza e certeza. Ascenção e sucesso aos que rapidamente tomam suas decisões. Em tempos de acesso ilimitado à informação, dúvidas perdem de vez o sentido e somente se justificam aos fracos, indecisos ou burocratas analíticos. Vacilar, refletir transformam-se em sinais de debilidade injustificada. É imperativo se posicionar com opiniões claras e definidas. PT ou PSDB? Feminista ou machista? Comunista ou neoliberal? Carro ou bicicleta? Mariana ou Paris? 

Parece estranho, mas a principal habilidade que nos diferencia perante nossos vizinhos coabitantes deste planeta, é justamente o que neste momento aparentemente torna-se supérfluo, nossa capacidade de pensar, tomar consciência, refletir.

Atalhos que economizam esforço são por demais atraentes para serem deixados de lado e estão sempre presentes. Eles vencem limites aparentemente intransponíveis em um passado recente, quase como milagres da infinita capacidade humana. Não muito longe, a nascente cocaína também foi considerada uma droga milagrosa, capaz de criar super-humanos, rápidos, assertivos e com uma energia aparentemente inesgotável. Figuras notórias, entre elas o próprio Freud, recomendaram seu uso e prescrição. A história demonstrou logo depois, que o remédio milagroso também cobrava seu alto preço. Não foi diferente com outras drogas, pirâmides financeiras, jogos de azar, milagres econômicos, religiões salvadoras ou sistemas políticos grandiosos. Todos exemplos de atalhos que no seu devido tempo cobraram seu preço.

A facilidade acomoda e gera dependência, não é diferente no caso da ferramenta que hoje é nosso principal instrumento de inteligência auxiliar. A musculatura do pensamento também é dependente de exercício e quando pouco desafiada, sabe repousar.

Em diversos momentos da história humana, a reflexão também foi deixada de lado e o automatismo simplista se fez presente. Infelizmente também foram os períodos mais obscuros, onde o fascismo, fanatismo e outros, deixaram suas marcas. O idiota útil, seguidor não crítico de dogmas ou ritos, é capaz de cometer os piores atos ou simplesmente cumprir ordens ou normas predefinidas na lógica booleana do sim ou não. Quando a reflexão é adormecida, os resultados são sombrios. 

Na idade do conforto das réplicas imediatas, cabe buscar alternativas que nos coloquem novamente de frente ao inexplicável, ao sem sentido ou ao só sentido. Inominável mesmo ao oráculo das bilhões de respostas, a filosofia e as artes nos permitem novamente ser ignorantes e como tal também autores. A pergunta sem resposta atrai o pensamento, que sem destino definido pode caminhar por sua singularidade e nos fazer criadores, portanto humanos.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

MERITOCRACIA, CONSUMO E A FALTA


O modelo de mercado competitivo e globalizado, pressionou empresas à busca de competitividade e diferenciais a fim de manter sua posição, vis-à-vis novos competidores vindos de além mar. Neste cenário, perseguindo a alta performance que asseguraria sua sobrevivência, boa parte das companhias adotaram modelos de gestão baseados na meritocracia, estimulando a competição entre seus colaboradores e premiando resultados diferenciados.

Rapidamente o modelo transformou-se em uma verdade corporativa, proclamada e ratificada por analistas e gurus da administração. Empresas não aderentes foram taxadas de arcaicas ou pouco competitivas, sendo pressionadas à mudança ou perdendo valor.

A vitória desta técnica baseada na lógica de mercado, perante outros sistemas e utopias, institucionalizou o conceito onde segundo bases “iguais”, os resultados obtidos definem e justificam os vencedores. A responsabilidade da vitória não deve ser distribuída, mas ranqueada e com a distinção clara entre vencedores e perdedores. Os eleitos tem sua diferenciação autorizada, já que a mesma é considerada fruto do seu talento e esforço superiores aos demais.

Neste cenário, o mercado de consumo também transforma-se e o produto
deixa de ser mera ferramenta utilitária e transveste-se como troféu de premiação a vencedores, consolo ou instrumento de disfarce para derrotados. Certificados pelos resultados premiados na meritocracia e julgados pelo seu talento e esforço “comprovados”, os vencedores estão liberados a exibir seus troféus.

O produto se veste de ferramentas de design e conceito, onde sua simbologia ultrapassa em larga escala sua funcionalidade mecânica. Consumidores são chamados de fãs, obtendo pertencimento e lugar, chegando aos limites da idolatria à marca.

Mesmo institucionalizado, o modelo expõe suas vulnerabilidades. O produto como combustível narcísico ou analgésico à falta é precário, portanto não se sustenta e faz-se necessária a repetição. Este ciclo de consumo repetitivo atende às métricas de crescimento corporativo, fundamentais à sobrevivência do modelo meritocrático, estendendo sua validade ao limite.

À repetição, o produto se renova, a obsolescência programada pare novas versões que tiram o valor simbólico da versão anterior e forçam sua substituição. Mesmo sem sustentação possível, o ciclo se repete à exaustão.

Este circuito de disfarces aparentemente sem fim, é realimentado continuamente pela lógica mercantilista, que movimenta objetos e sujeitos conforme suas leis de oferta e demanda. No entanto, tanto vitoriosos quanto perdedores, tal qual faces de uma mesma moeda, não passam impunes e pagam o preço por figurar neste jogo sem perceber.

Sem perceber?

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

quinta-feira, 20 de março de 2014

TAL QUAL TELA DE CINEMA


Não conhecemos nem a nós mesmos, surpreendemo-nos ao longo da vida, com descobertas que em algum momento foram simplesmente esquecidas. Então, o que dizer deste ignorante de si, quando apaixonado por outro semelhante na sua falta? Apaixonamo-nos por quem? Nossos próprios reflexos, tal qual Narciso? Pelas projeções de nossos desejos, limitações, medos?

Tal como uma tela, o outro apresenta um filme projetado por nós mesmos. Sem perceber, aquilo que nos escapa à percepção consciente, pede espaço e se apresenta. Filme agradável, escolhido a dedo, selecionado entre as distrações da realidade, existe para dar espaço ao que já não cabe adormecido e pede lugar para se manifestar.

O objeto da paixão, como tela de cinema, segue e realiza o projeto do outro. Alimentado pelo olhar apaixonado, que vê o que ele mesmo projeta, se confunde com um filme que não é seu, se ilude como se fosse tela morta. Sujeito incerto que também não se conhece, agora pensa que ganha forma, simplicidade e finalmente: tradução. Como fita de cinema, agora tudo pode, é grandioso e sem limites. Fácil abdicar, por um momento, da difícil realidade de não se compreender.

Chega o tempo em que o outro aparece. No início a projeção da paixão é forte, quase matéria densa. A tela parece branca, ofuscada pela força da luz projetada,  sua cor e textura únicas e também capazes de projetar seu próprio filme, por um momento parecem não existir. Saturada pela projeção da paixão, parece superfície plana, passiva, objeto unicamente refletor do filme de outrem.

A vida vem e a realidade desvia a atenção. Projetor de cinema é máquina estática, pregada no chão, não desvia da tela e cumpre seu papel até o fim do filme. Nosso apaixonado não. Ao sujeito que agora se imagina completo, mais forte e desperto que se torna, parece pouco fixar-se a uma só tela. O foco estático e a intensidade do investimento necessários à projeção, parecem muito caros e por demais limitantes de oportunidades, que agora parecem infinitas ao super sujeito.

O outro, sem a luz forte, intensa e determinada, se mostra verdadeiro. Não é tela branca, sem riscos ou marcas, por isso reflete algo diferente do que recebe. Imprime sua marca no que vem do outro. Também não é só objeto refletor, tem brilho próprio. Não pode mais ser espelho fiel do que lhe é projetado, distorce o que recebe com suas marcas e interpretação, adiciona seu próprio conteúdo de sujeito também ativo.

O filme agora parece modificado, o olhar do sujeito apaixonado já não vê somente suas projeções. Agora, o outro tem seu próprio brilho e transforma o que recebe, gerando um novo filme, de cores diferentes e realidades contorcidas.

Cabe ao apaixonado, inicialmente sorridente e receptivo ao próprio espelho, mudar de posição.  Tal qual o amante da arte, aquela que transforma a realidade, em objetos cubistas, manchas multicolores ou desenhos abstratos, ele deve libertar-se do que não consegue ver e transcender no que consegue sentir.

O vivenciar do filme distorcido, colore a realidade e abre aoportunidade de se ver além, tal qual uma realidade alucinada e expandida. Neste mundo, o sentir é soberano sobre o pensar, o prazer ou a dor definirá o desejo de permanência ou extinção. Somente aí, se poderá descobrir se o que era paixão, foi capaz de se transformar em amor.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

SOBRAS QUE FALAM


Interessante notar o poder das palavras. Decodificação do pensamento, nomeia o que é abstrato, mas sendo apenas tradução, não consegue ser fiel ao objeto original, apenas semelhante. Como um escultor que retira os excessos da rocha e revela a forma submersa, as palavras não são diferentes, dão forma ao pensamento e o retiram do seu estado original. Resta saber o que fazer com as sobras.

O bebê ainda não aprisionado na linguagem, usa sua única ferramenta de tradução disponível, o sentir. Como um cego dependente da audição e do tato, ele usa o que tem disponível, falando e ouvindo sentimentos. Chora no colo de um e dorme tranquilamente no colo de outro, do seu modo, a conversa é estabelecida.

Aos poucos, instrumentalizado pela linguagem, esta habilidade adormece. Falar e ouvir é mais fácil, direto, objetivo, mas a ferramenta que livra do esforço é a mesma que aprisiona no conforto. Interessante observar astronautas recém chegados de longos períodos no espaço, incapazes de levantarem-se de suas próprias poltronas. Tornaram-se reféns da gravidade zero, outrora libertadora.

A linguagem então cumpre o seu papel. Ano após ano esculpindo pensamentos, sobra no inconsciente o resto que não foi trabalhado. Passado o tempo, o caminho já está obstruído e as palavras já não são capazes de alcançar o que foi deixado para trás.

Resta a alternativa do sentimento. Enfraquecido pela prepotência da palavra, ele ainda emite sinais do esquecido: angústia, ansiedade, vazio, megalomania, ódio, paixão, tristeza, euforia. Transitando pelos extremos, o sentimento deixa seus traços marcados pela característica comum, a intensidade. Positivo ou negativo, tanto faz, gargalhadas ou crises de choro são falas da mesma conversa.

O corpo também se oferece como alternativa. Ele tem sua própria linguagem, cansaço, hiperatividade, dores, insônia, doença. Os caminhos são quase infinitos e permitem a seu modo, escape ao reprimido, mas é difícil entender esta conversa. O recalcado mais profundo normalmente utiliza-se da conversa mais primitiva, não compreensível à maioria, placidamente acomodada ou imobilizada na comunicação monoteísta da palavra.

Passado o tempo, o recalcado que aflora deixa suas marcas, seus sintomas. Esquecidos na rotina, podem passar por uma vida inteira tolerados e convividos. Comum nos apresentarmos e nos conformarmos com nossas manias e repetições, traduzindo-os como nossa marca pessoal ou o nosso jeito. Oxalá permaneçam assim e não impeçam o trajeto de uma vida em paz, amando e trabalhando, como Freud nominou.

Em alguns momentos os sintomas parecem mais pesados. Uma decepção, luto ou perda deixam aflorar a fraqueza, e o que antes parecia um sinal inofensivo, começa a cobrar o seu esquecimento. O cardápio de antídotos são muitos. Uma boa companhia, atividade física ou simplesmente uma boa noite de sono, podem reequilibrar o sistema e permitir continuar.

Mas a vida não pára, os desafios são contínuos e a caminhada é longa. Nossos sintomas, companheiros de jornada, não nos abandonam posicionando-se lado a lado, exercendo sua principal característica, a repetição. Assim como o bebê que carente de alternativa, insiste no choro até que seja compreendido, o sintoma se repete infinitamente aguardando tradução. Os exemplos são muitos: o que não sabe perder, o que tem dores repetidas ou está sempre doente, o melhor amigo de todos que acaba sozinho, o que não consegue terminar o que inicia, o que não se livra do que lhe causa sofrimento, o que está sempre feliz ou triste, o que não se estabiliza em nenhum trabalho, o que não sustenta uma relação amorosa e muitos outros.

Você vai ficar bom. Os tradicionais médicos de família, desde os primeiros tempos já tranquilizavam seus pacientes, sugerindo sua cura. Casos clássicos de placebos, confirmam que o auto convencimento também cura. Neste caminho as alternativas são várias, livros de auto ajuda, programação neurolinguística, religiões ou ritos curandeiros. Por diversas vezes este mecanismo funciona, tem sua força e produz resultados.

Quando a melhora não vem, parece que o outro tem sempre a solução. Ouve-se de vários e a todo tempo: você deve fazer isso ou aquilo. A solução parece fácil. O problema que na pele do outro parece simples, nos próprios sapatos aprisiona em um ciclo fechado de repetição e sofrimento. A solução conhecida, parece impossível a quem a tem que executar, não fosse isso, o problema por si só já não existiria.

A palavra não age sozinha, as sobras não são deixadas de lado por acaso. Como no exemplo do escultor que separa minuciosamente o que fica e o que vai, a palavra também tem seus caminhos direcionados. O que foi deixado para trás, teve sua razão: dolorido demais para suportar ou proibido demais para aceitar. É preciso evitar o desprazer e por defesa, o dolorido ou reprimido, é esquecido e guardado. Pior, quanto mais sofrido mais bem guardado. A inflamação que dói ao menor toque precisa ser protegida, mas uma vez não tratada, cresce e fica mais sensível.

Por necessidade de uma proteção crescente, a defesa aumenta quase sem limites. No fim, o esforço para mantê-la de pé, consume tanto que sobra pouco para o resto. O peso é cada vez maior e o passo mais lento, cansado, sofrido. A barreira é crescente e deixa o recalcado mais distante, aparentemente perdido. A consciência não tem como perceber, ela está ocupada demais em gerir muros cada vez mais altos e dependentes de mais e mais esforço de vigilância.

Não há saída. Para buscar o que foi guardado por tanto tempo e que hoje causa sofrimento, é preciso superar nossas próprias resistências. Abrir espaço por entre as barreiras, para finalmente chegar até a ferida e trabalhar. O caminho é espinhoso, as resistências cumprem o seu papel e castigam cada avanço, tentando manter o protegido sem acesso, por isso é preciso persistência, esforço e tempo.

Ajuda é necessária, muito difícil percorrer um caminho desconhecido, cravado de obstáculos e sem saber onde se deve chegar. Ninguém imaginaria aventurar-se em uma caverna inexplorada sem o apoio de um guia habilitado, mesmo que ele como você, nada soubesse sobre o que viria descobrir. Este percurso é a experiência analítica, analista e analisando experimentando juntos um caminho esquecido.

Tal qual um arqueólogo que pacientemente separa cada um dos cacos encontrados, retirando a poeira, buscando a indicação do novo pedaço faltante, analista e analisando buscam suas redescobertas. Sabe-se que elas estão por ali, mas é preciso deixar fluir. As peças não se apresentam segundo as expectativas, seguir hipóteses preestabelecidas somente levam aos caminhos conhecidos e lá não estão as sobras.

É preciso deixar o pensamento livre e a palavra ao acaso. Por acidente, o esquecido finalmente dá seus sinais e escapa por entre as ranhuras dos muros da resistência. Uma palavra trocada, uma pausa, um esquecimento, uma associação. São pequenas pistas que levam aos caminhos abandonados e às sobras perdidas.

Uma vez reencontradas elas se apresentam como velhas amigas. Estranho como algo aparentemente esquecido, quando relembrado mostra-se tão presente e familiar. A sobra pede acolhimento e conforto. Renascida e livre do aprisionamento das resistências, traz consigo a breve sensação de ternura e completude infantil, originais da sua formação. Interessante notar que o antes proibido ou dolorido, causador de tanto esforço de proteção, trazido à vida, revela-se um fantasma inofensivo.

A satisfação da experiência anima a continuar e o percurso da análise apresenta novas velhas conhecidas. As sobras uma a uma vão se apresentando e retomando seu lugar. Em cada redescoberta uma breve satisfação.

O longo percurso da análise finalmente tem seu fim, quando cada pedaço retoma o seu lugar e finalmente é escutado e trabalhado. Ele pode abandonar seus sintomas, eles não são mais necessários. A criança que chorava no quarto escuro finalmente foi acolhida, pode então dormir em paz.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

PENA QUE TUDO DEU CERTO



Nascemos em uma caixa definida pelo tempo e espaço. Cabe a nós libertarmo-nos e descobrir nossos próprios caminhos.

A vida nos oferece muitas escolhas ao longo de nossa existência, menos a decisão de onde e quando iremos nascer. Obra do acaso, Deus ou qualquer outra explicação que cada um possa ter, a caixa onde nascemos influencia nossa formação e talvez, na maioria das vezes, determina nosso destino.
Nascer na periferia de uma grande cidade do terceiro mundo, fruto de uma família desestruturada, de maneira geral, produz repetições do modelo vivido. Fácil imaginar o marginal desajustado ou qualquer outro perfil não qualificado, amplamente explicado pelas teorias sociológicas.
Mesmo no caso inverso, onde o filho produzido neste mesmo ambiente, segue o caminho oposto ao esperado, tornando-se a antítese da realidade vivida, exemplo do homem sério e responsável, comemorado como prêmio do destino ou fruto de uma personalidade diferenciada, parece simplesmente a outra face da mesma moeda.
O privilegio do nascimento em uma família oposta a primeira, sob um olhar apressado, parece gerador de uma vida liberta. No entanto, a realidade também produz modelos aparentemente predeterminados. É fácil imaginar o filho esperado e também o ovelha negra negativo do primeiro.
Nos dois exemplos, os frutos parecem simplesmente limitados à repetição ou a negação de um modelo vivido originalmente. A caixa predetermina seus caminhos futuros.
Quando as experiências acima produzem comportamentos ditos negativos, ou por repetição do modelo deficitário original ou o como negação do contrário, a sociedade é rápida em explicar ou condenar o rebelde sem causa.
Mais complexa é a face positiva, normalmente aceita e até incentivada. Neste caso, o indivíduo aprisionado à caixa, fica adormecido e motivado a manter-se imóvel.
Tudo segue conforme o determinado, até que os fatos da vida apresentem àquele exemplo admirado, a decepção da perda, luto ou qualquer experiência de derrota, que desafia e normalmente desmonta o modelo aparentemente equilibrado e vencedor.
Escancarada a fragilidade do originalmente dito completo, a estrutura é questionada e por diversas vezes desaba por inteiro. O indivíduo tem finalmente a oportunidade de olhar-se no espelho e buscar seu eu, descolado do produto previsível e forjado pela experiência vivida.
Quanto mais sofrido melhor, a angustia da derrota longa e profunda dificulta o retorno ao modelo anterior, tranqüilo e acolhedor, dentro da caixa aprisionadora.
A derrota obriga ao derrotado a buscar alternativas, primeiramente seguindo o modelo original e depois, idealmente após sucessivas experiências de fracasso, obrigado finalmente a buscar novos caminhos.
Desprovido do modelo original, ao indivíduo só restam novas escolhas, mas para isso, antes necessita olhar-se e separar-se do que não é seu, mas espelho do outro, positivo ou negativo, tanto faz.
Caminhar nesta direção é uma experiência única e libertadora. O renascimento, como o original, é sofrido e angustiante, mas oferece oportunidades infinitas.
Infeliz daquele que a vida não desafiou e o manteve adormecido em um modelo de sucesso. Maldito sucesso, que quando pleno, ratifica "escolhas" previsíveis e imobiliza camadas impostas por terceiros. Neste caso, o eu verdadeiro pode permanecer adormecido por toda uma vida, sem libertar-se da caixa definida pelo tempo e espaço do seu surgimento, cabe então apenas lamentar por tudo que deu certo.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

PATERNIDADE DISTRIBUÍDA


A sociedade tem desafiado os modelos formais de família, trabalho, religião, lei. Os formatos históricos são diretamente questionados ou simplesmente substituídos por novas estruturas. As funções materna e paterna, antes confundidas pela relação parental e hoje substituídas pelo exercício da função, parecem ameaçadas. Sem a vivência dos limites impostos pela lei, familiar ou institucional, será que as próximas gerações serão dominadas por individualistas, imobilizados no narcisismo?


Famílias sem mãe ou pai, relações abertas, pais ausentes, competição destrutiva entre casais, uniões constituídas sem o custo do compromisso, as relações tem produzido formatos muito distantes do outrora usual pai, mãe e filhos. As funções parecem misturadas, diminuídas ou até eliminadas. A liberdade, independência e o sucesso econômico profissional, de pais e mães, justificam socialmente, a formação de filhos de forma distante e não participativa.

Aparentemente é delegada à escola, de forma não negociada, a obrigação de definir os limites da lei. Não preparada e limitada pela patrulha dos pais e a obrigação mercadológica de manter clientes satisfeitos, ela também fracassa. Os pais clientes não querem aceitar questões dos filhos, que no fim, apontam para falhas nos seus próprios modelos e comprometem sua estrutura familiar sustentada por um equilíbrio instável.

No trabalho, a geração Y necessita de sofás coloridos, mesas de sinuca, horário flexível e tudo mais que disfarce o óbvio da relação mercantil presente ali. Técnicas motivacionais devem inflar egos narcisistas, caso contrário, tudo fica muito sério e é melhor trocar de emprego ou melhor, de diversão.

A religião há pouco bem definida, passa a estar distribuída em diversos modelos e crenças. Não há nem mesmo a necessidade de uma crença comum, é aceita ou mesmo estimulada, uma opção individual onde o sujeito cria seus próprios credos e dogmas individuais. Melhor assim, aceitar um modelo comum implica em renunciar a outros, que no fundo podem produzir frustrações desnecessárias a quem não quer ter parte, quando pensa que pode ter tudo.

A lei, ex-absoluta e inquestionável, é flexibilizada por técnicas jurídicas ou simplesmente ignorada. Parece sem sentido seguir regras definidas por terceiros, quando há tantas alternativas. Mais que isso, o desafio à lei traz prazer e a sensação que se pode ir ainda mais longe.

Ficam as limitações objetivas da vida: saúde, dinheiro, tempo, morte. Impostos arbitrariamente pela realidade, em um modelo narcisista, confundem-se com novas barreiras a serem transpostas. Sem perceber, a vida, de uma longa caminhada, se transforma em uma maratona de obstáculos. Dietas alternativas, exercícios freqüentes, smartphones, internet, stock-options, bônus agressivos, parecem ferramentas capazes de superar mais estes desafios, mas não há treinamento suficiente para completar uma corrida sem fim.

Os sinais parecem definitivos. Os espaços individuais crescem sem limites, cada vez maiores, mas aí, a física impõe seus limites. Dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Egos também se esbarram, não se sobrepõem. A ameaça que vem do lado define restrições e aos poucos, a energia de expansão passa a ser de defesa, o crescimento dos laterais impede o avanço, pior, ameaça as conquistas.

A compressão termina por formar um corpo único de diversas camadas. Ausentes de uma regra comum, oferecida pela cultura, moral, religião ou lei, no limite, esta massa deveria se desordenar ou atingir o equilíbrio pelo encontro pouco provável de forças opostas de intensidade semelhante, mas não parece ser este o caso.

Disfarçada por nomenclaturas atuais, a lei parece ressurgir. Dogmas religiosos, tradições familiares e capítulos da lei são paulatinamente substituídos por consciência social, respeito ao meio ambiente, feminismo, politicamente correto ou quaisquer novos apelidos às restrições abandonadas, ou melhor, substituídas. Já aconteceu antes, a geração passante e seguinte têm a tentação de julgarem-se reciprocamente, com a impressão de algo está sendo perdido ou negado respectivamente. No entanto, quase que os limites naturalmente ressurgem com novas embalagens.

O clube social, igreja ou partido político, são substituídos pelo facebook, orkut, ou youtube. Regras ou preceitos religiosos transformam-se em linhas de conduta implícitas, muitas vezes mais severas que as impostos por religiosos xiitas. A privacidade e opinião individual estão expostas à patrulha viral via internet, um deslize e rapidamente a falha estará sujeita ao julgamento de muitos, às vezes milhares. Uma paternidade "beeeeeemmm" distribuída.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)