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Neste espaço você poderá conhecer algumas das minhas reflexões, que espero, possam de alguma forma estimular seu pensamento e divertir.

"Vida longa aos dias de sol!"

terça-feira, 20 de novembro de 2018

SOBRE O FILME: “AMORES URBANOS”




Começo citando a entrevista da diretora e roterista do filme Vera Egito, presente nos extras do filme. Ela afirma que não tinha a pretensão de retratar uma geração ou uma cidade, mas especificamente um grupo de tipos, presente nos grandes aglomerados urbanos do mundo, que segundo ela poderiam estar no Rio, São Paulo, Nova York ou qualquer outro semelhante.

Essa é uma ressalva importante, uma vez que nos alerta a não partir para generalizações, tão comuns e especialmente potencializadas nos tempos de comunicação em rede, sobrecarregadas de verdades de como são as coisas ou as pessoas. Na maioria das vezes, grosseiras normatizações de grupos específicos.


Além deste recorte, ela acrescenta que apesar de fictício, o filme inclui diversas histórias da própria diretora e de alguns amigos. A cena de abertura, quando a personagem Julia é surpreendida pelo presença da namorada oficial do seu pseudo namorado de dois anos, seria real e que tudo aquilo de fato aconteceu com uma pessoa próxima, incluindo especificidades como os amigos na sala do apartamento e a sequência com a discussão na garagem. Essa colagem de histórias traz à ficção um retrato encarnado de um grupo específico de tipos. Neste sentido, vale um segundo olhar àqueles personagens, que de alguma forma representariam na tela situações reais da rotina de alguns jovens das grandes cidades.


A crítica cinematográfica, em sua maioria, considerou o filme regular, com cotação variando entre duas e três estrelas. Os comentários mais comuns indicaram uma certa monotonia ou engessamento da câmera, ausência de profundidade e fôlego na história dos personagens, ou o falta de timing de cena [1].


Ainda nos extras, a diretora e os produtores do filme afirmam que a execução do filme teve uma clima amistoso, uma vez que a maioria da equipe de atores e técnicos já se conhecia. Algo como se o filme tivesse sido produzido como uma “ação entre amigos”, interessados na viabilização do projeto. Apartamentos, carros, figuração e até o cachorro eram de pessoas relacionadas.


Parece interessante notar que a colagem de histórias e a produção entre amigos de alguma forma deixaram marcas no filme, a monotonia da câmera e a citada ausência de profundidade dos personagens, conversam com o retrato do grupo, que o filme nos apresenta. Estilos de vida talvez desencarnados ou somente encorpados, distantes mesmo dos andróides retratados no filme Blade Runner, que cientes da morte próxima, lutam por uma saída de um destino previamente traçado [2].

Os jovens ali apresentados, parecem adormecidos na rotina do dia-a-dia, em uma vida fisicamente intensa, em baladas, eventos e bebedeiras, mas ao mesmo tempo preguiçosa à reflexão. Parece que o futuro não trará novidades, sendo apenas um presente incansavelmente repetido. A câmera engessada parece fiel aos personagens, eles se movimentam mas não se movem. Não haveria para onde ir?


Em 1995, o economista americano Robert Lucas Jr, ganhou o prêmio Nobel de economia, por conta da sua teoria sobre Expectativas Racionais [3]. Resumidamente, segundo ela, os agentes econômicos seriam de alguma forma imunes a planos econômicos heterodoxos, uma vez que previamente conhecidos seus efeitos, os agentes teriam condições de antecipar acontecimentos futuros e assim agir imediatamente. As expectativas racionais trariam o futuro ao presente, anulando as tentativas de direcionamento do mercado.


O futuro aparentemente vazio de expectativas daqueles personagens, de alguma forma também esvaziaria de sentido seus presentes? De que adianta avançar se o destino já não nos interessa?


Diferentemente das gerações anteriores com planos bem definidos pela religião, família ou trabalho, este grupo parece imune aos projetos da tradição. O dogma religioso parece não seduzir sacrifícios terrenos pela garantia de uma vida eterna à posteriori, a família antes porto seguro, hoje parece um encontro momentâneo, já sem a garantia do “até que a morte nos separe”. O trabalho, em décadas passadas, carreira segura e definida por planos ou patentes, hoje é volátil e temporário em tempos de freelas ou PJs.


Esta tribo, hoje com cerca de trinta anos, é nascente da década de noventa. Não por coincidência, quando se iniciaram os PDVs (ou planos de desligamento voluntário) nas empresas, que em muitos casos destituíram chefes de família da classe média brasileira de suas carreiras seguras e eternas. Boa parte desses jovens presenciaram a queda de seus pais ou parentes, após anos de investimento em um futuro dito garantido. Como convencer este jovem a repetir o investimento frustrado de seus pais? A ausência de uma expectativa de um futuro sedutor, limitaria os investimentos necessários no presente?


Freud, antes mesmo dos economistas, já nos falava do princípio de realidade quando o sujeito é capaz de adiar a satisfação momentânea ou aceitar infortúnios presentes, como um investimento a um bem maior mais à frente [4]. Parece que a estes jovens careceria este tal “bem maior”.


A ausência de um futuro empurra o jovem à ditadura do presente, não admite adiamentos, sacrifícios. Se nada nos aguarda, melhor gozar agora!


Esse presente desbussolado e sem futuro é carente de sustentação. Frágil ele demanda movimento, já que estacionar pode ser arriscado. Parar os exporia a fragilidades, tal como o patinador sobre o gelo fino, é preciso aumentar a velocidade e manter-se em movimento. No filme, as cenas paradas se alongam em silêncios angustiantes, na navegação pelo celular ou na maratona de séries intermináveis. É necessário manter-se ocupado [5].


A alguém acostumado às bilhões de respostas disponíveis nas pontas dos dedos diretamente perguntadas ao Google, nosso guru de bolso, não teria sentido arriscar-se em se perder por perguntas ainda não solucionadas, como: “quem sou eu?”, “de onde vim?”, “para onde vou?”, “o que faço por aqui?”. Aprofundar-se em gelo fino, sem cordas ou redes de resgate, é certeza de prejuízos intoleráveis.


Quando a profundidade se apresenta, por um acaso ou fatalidade, ela deve ser rapidamente evitada. É assim no “por favor vai embora” da cena da garagem, no telefone que toca sem parar, no “eu tô bem!”, ao fim do relacionamento de dois anos, no “foi tudo bem lá?” da estilista à Julia, recém chegada de um aborto, ou no “minha vida tá ótima, tô super bem comigo mesma, tô super bem no meu trabalho, tá tudo certo” da filha em conversa com os pais, ou no “foda-se ele” ao pai arrependido e no “se você vier me dar uma liçãozinha de moral, nunca mais eu falo com você”. Melhor o silêncio ou “eu vou cortar uma maça” e desviar-se, como faz Micaela.


Quando a realidade atravessa e parece impossível escapar, haverá sempre o entorpecente disponível e inesgotável, como Diego oferece à Julia “se acabar a bebida lá, aqui nunca falta”.


A alguém sem recursos parece difícil amar, passar à diferença, expor-se a riscos e incertezas que o amor traz consigo. Parece uma aposta impossível a quem senta na mesa de jogo, sem cacife para iniciar a primeira rodada. Amar é dar o que não se tem, já disse Lacan, mas somente poderá oferecer sua falta, quem antes chegou até ela. O que parece impossível àqueles sujeitos já saturados pelo vazio. Cabe ficar onde se consegue chegar, rasteiro no “eu pensei que você ia tentar mudar — claramente você pensou errado”, no “é pegar ou largar” ou no “ou ela te assume ou tchau” [6].


Melhor manter-se no amor fraterno, bem menos arriscado e demandante. O erótico vira cardápio e disponível quando necessário, na balada ou aplicativo, disponível a qualquer hora em qualquer lugar.

Alguém uma vez disse que o casamento nos asseguraria uma testemunha à nossa própria existência, o que não parece mais necessário a quem tem à mão as redes sociais, que nos oferecem milhares de testemunhas até a próxima wifi disponível. Quem tem redes não precisa de laços, muito menos de nós

São essas testemunhas que finalmente nos respondem: “quem sou eu?”. São elas que descobrem e aprovam nossas habilidades e talentos, confirmam nossas escolhas. Seguidores e likes nos indicam os melhores caminhos e nos liberam mais uma vez de reflexões trabalhosas. Tanta gente nos seguindo ou curtindo nossas receitas é sinal que há algo ali, melhor rapidamente corrigir o status na rede social e seguir adiante, manter o ritmo, como nos ensina a personagem Julia [7].


No fim, a maratona sem linha de chegada não oferece descanso. Mesmo no limite, quando apresentados à morte, nosso destino final e certeiro, esta é no máximo motivo de pausa, um breve abraço ou um leve choro. Não podemos esquecer que ainda estamos sobre gelo fino, é preciso manter sempre o movimento e assim seguem Diego, Julia e Micaela.






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[1] “Há uma vivacidade, um frescor na filmagem, em seu naturalismo sem exageros. (…) A contrapartida é o caráter meio raso na construção desses personagens. Pouco sabemos deles no início e pouco descobriremos ao final.” (“Jornal Estado de São Paulo”, Luiz Zanin Oricchio, 2014)

“A premissa de dramatizar os dilemas emocionais desses jovens adultos vivendo entre moda/arte/design é interessante, mas o desenvolvimento não dá conta do projeto. Falta um real fôlego descritivo para elaborar personagens menos caricatos, e falta talento cinematográfico para criar timing de cena.” (“Jornal O Globo”, Ruy Gardnier, 2014). Trechos extraídos do site AdoroCinema, link:http://www.adorocinema.com/filmes/filme-231638/criticas/imprensa/.

[2] Blade Runner é um filme de ficção científica neo-noir americano de 1982 dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young e Edward James Olmos. O roteiro, escrito por Hampton Fancher e David Peoples, é vagamente baseado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick. (Wikipédia)

[3] “Lucas é muito conhecido pelas suas investigações sobre as implicações do pressuposto das expectativas racionais. Lucas incorporou a ideia de expectativas racionais num modelo de equilíbrio geral dinâmico. Os agentes no modelo de Lucas são racionais: com base na informação disponível, formam expectativas sobre os preços e quantidades futuro e com base nessas expectativas eles agem para maximizar a sua utilidade total esperada.” (Wikipédia)

[4] “Na verdade, a substituição do princípio do prazer pelo da realidade não significa a deposição do princípio do prazer, mas sua salvaguarda. Abandona-se um prazer momentâneo, incerto quanto a seus resultados, para ganhar, no novo caminho, um prazer seguro que virá depois.” (“Obras Completas, Volume 10, Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Psíquico”, Sigmund Freud, 1911, p. 116)

[5] “(…) radicalmente sós, amarrados a um futuro vazio, ocupados pela alucinação permanente de um presente que não pode parar, nem pensar, e que nos é, e que simplesmente somos.” (“A Música do Tempo Infinito”, Tales A. M. Ab’Saber, 2012, p. 29)

[6] “Ela [a perversão] está hoje no princípio das relações sociais, através da forma de se servir do parceiro como um objeto que se descarta quando se avalia que é insuficiente.” (“O Homem Sem Gravidade”, Charles Melman, 2008, p. 172)

[7] “O reconhecimento segundo o ‘modelo antigo’ era adquirido de uma vez por todas: quando você se fizesse reconhecer por um certo número de qualidades, sua ‘passagem’ para um certo estatuto era admitida e definitiva. O sujeito capitalista, hoje, corre sem parar atrás desse reconhecimento, exposto a todos os acasos do futuro próprio à economia, isto é, arriscando se arruinar, ser preso, em suma, desaparecer. Estamos em duas lógicas completamente diferentes: uma fundada na assunção do traço que segura a identidade; a outra é organizada pela busca incessante das marcas de um identidade que só vale no olhar do semelhante, que só pode ser validada por um efeito de massa — reconhecimento público, midiático — e que nunca é definitivamente adquirido.” (“O Homem Sem Gravidade”, Charles Melman, 2008, p. 172)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

PESTES SUBVERSIVAS


Médicos da peste: a sombria aparência de quem tratava de doenças contagiosas
e epidêmicas na Idade Média.


peste1:
1 doença infectocontagiosa que se manifesta sob a forma bubônica, pulmonar ou septicêmica, provocada por
Bacillus pestis, que é transmitido ao homem pela pulga do rato
2 mal contagioso; pestilência
3 epidemia que acarreta grande mortandade
4 tudo que corrompe física e moralmente
5 coisa funesta
6 excesso de qualquer coisa prejudicial ou danosa
7 mau cheiro, fedor
8 coisa malfeita, ordinária

subversivo2:
1 que subverte; que causa subversão
2 que ou aquele que prega ou executa atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida; revolucionário
3 que ou aquele que expressa ideias, pensamentos, opiniões opostos ou profundamente diferentes dos da maioria
4 que ou aquele que age de maneira a perturbar, tumultuar as instituições, que é contra a ordem e deseja o caos e a anarquia; perturbador, agitador 






Será possível comparar a experiência da arte à psicanálise? Áreas aparentemente tão distantes poderiam estar ligadas? Talvez possamos falar sobre o estranhamento, ou o eterno questionamento sobre suas qualidades. Afinal, ambas são severa e repetitivamente questionadas à respeito de sua utilidade, já que em um cenário de eterna busca da eficiência, parece sem sentido investir-se em algo que não traga benefícios claros e tecnicamente comprováveis.

Talvez este parentesco, via crítica, nos revele algo de comum entre ambas. A psicanálise segue sempre comparada ao sua parente dita mais próxima, a psiquiatria, sendo desqualificada quanto aos seus resultados e cientificidade dos seus conceitos, pois entre tantos testes e regulações, a psicanálise parece incapaz de satisfazer aos critérios de avaliação normalmente aceitos. A ciência médica por outro lado, rigidamente regulada e corporativa em seus interesses, informa claramente seus avanços e resultados técnicos. Qual o sentido em uma sociedade rica em alternativas tecnológicas, perder-se tempo em algo estranho que afirma, sem comprovar, que ocupa-se da “cura pela palavra”3?

Sua colega e também subversiva4, a arte, do mesmo modo padece na comparação com seus primos mais próximos: o design e a indústria do entretenimento. Os dois sendo claramente os campeões da sociedade corrente, onde não por coincidência, a empresa mais valiosa do mundo5, Apple, se diferencia perante seus concorrentes pela opção do belo, valorizando-se e diferenciando-se pelo design de seus produtos6; e sua prima, a industria do entretenimento, que é uma das que mais cresce no mundo7, responsável por um mercado anual de quase US$2 trilhões8. Parece que estes dois campeões, dizem ao que vem e trazem resultados claros e objetivamente mensuráveis. O que dizer da arte, muitas vezes hermética, pouco decifrável e aparentemente sem sentido?

Tudo indica que os primos pobres tem suas mazelas comuns à sobrevivência em um mercado aparentemente focado em soluções, mas além dos seus desafios competitivos o que mais estes teriam em comum? Onde se tocam? Talvez na experiência do estranho, aquele que nos desequilibra e questiona o lugar comum. Por aí, psicanálise e arte aproximam-se por suas consequências e efeitos aos sujeitos que de alguma forma, são contaminados pela exposição às suas pestes9.

À infecção exige estar exposto à sua influência, vivida quase sempre em um ambiente especial e concentrado, necessário à contaminação. Não por coincidência, psicanálise e arte são exercidas em lugares que guardam uma especificidade em relação às partes comuns da sociedade. Mesmo considerando exceções como os movimentos de arte urbana10 e de experiências recentes de atendimento psicanalítico em espaços públicos11, vale nos determos um pouco mais na comparação do setting analítico com a galeria de arte, ambos necessários à experiência infecciosa. Cada um segue ao seu modo, mas de alguma forma estão ligados em mítica.

O setting analítico, descoberto por Freud12 nos primórdios da nascente psicanálise é herdeiro do consultório médico, mas logo cedo seguiu por caminhos singulares, como um espaço onde analista e analisando trabalham, não como numa conversa informal ou uma anamnese médica, mas em um encontro especial de suas palavras, viabilizado pela associação livre do analisando, a escuta flutuante do analista e suas intervenções. O divã está presente, mas o elemento mais importante e viabilizador da experiência é a transferência estabelecida entre o analista e o analisando. Elemento necessário a existência do trabalho, quando o analista assume como disse Lacan o “lugar de sujeito do suposto saber”13, algo que de alguma forma oferece espaço às questões do sujeito analisado14.

A galeria de alguma forma fala com o setting, um outro lugar também separado, destacado, especialista no que se propõe: expor obras de arte à contemplação. Ali, de alguma forma o expectador também se coloca de forma diferente, normalmente em silêncio, poucas palavras, com seu olhar assumindo a posição de sentido soberano sobre os demais. Um caráter às vezes ascético, tal como um “cubo branco”, que se posiciona neutro, a fim de que a obra de arte se coloque como o elemento maior. Também não seria demasiado supor uma “transferência” entre o expectador e a obra, que lhe apresenta algo que parece um estranho familiar, um algo a ser descoberto. Um suposto saber?15 Talvez sim, um suposto saber do artista realizador da obra, mas não somente isso. A obra livre de seu autor, segue por seus próprios caminhos, mais além do que muitas vezes o originalmente planejado. Em um documentário16 sobre o espetáculo “Beatles” do Cirque du Soleil, Paul McCartney ao assistir sua canção representada em um dos quadros da peça, se surpreende o quanto teria ido longe sua própria criação, comparada às pretensões presentes no momento singelo de sua composição: uma simples canção composta com seu colega da época, John Lennon, “era um processo tão simples e veja o que aconteceu”, diz ele no filme. A obra assume sua própria vida, independente dos desejos do seu criador.

E o que dizer do ato analítico? Aquele ato herético, que como tal expõe o sujeito às escolhas, o desloca dos seus trilhos seguros cuidadosamente elaborados ao longo de sua vida, quebra verdades, implica ações e consequências, desperta quem parece adormecido. Na experiência da arte, talvez também não seja diferente, aquele quadro obscuro, estranho, muitas vezes nos revela algo familiar, um avesso às vezes ignorando ou esquecido, mas que apresentado indiretamente nos faz pensar, nos reapresenta à vertigem de um furo próximo, ameaçador mas ao mesmo tempo, também um pouco nosso. Se não comparável em potência e continuidade à experiência psicanalítica, a exposição à obra de arte se apresenta disponível e sempre à mão. Como disse o curador da Bienal de Coimbra de 2017, “Curar e Reparar”, Delfim Sardo17: “Em si, a arte não cura nada. Também não revoluciona, nem rompe, nem corta, mesmo que finja fazê-lo: encena, por muitas formas, esses processos e, no melhor dos casos, propõe-nos que reparemos.”, talvez ela vá menos longe do que a palavra que cura da psicanálise, mas ao mesmo tempo, como ele também nos diz “há qualquer coisa que pode ainda ser arranjada, mesmo que pela exposição de uma ferida”. Sim, uma ferida, talvez somente um pequeno furo, mas absolutamente necessário ao sujeito refém de um mundo cada vez mais hermético e equilibrado. Assim, arte e psicanálise, cada uma a seu modo, são capazes de cumprir talvez sua missão comum e de algum modo nos infectar, estimulando-nos a irmos além, sem mapas ou guias. Um viajante singular, que como tal, caminha sempre por terras estrangeiras. 



Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista
marcospaimcfonteles@gmail.com



Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2009, p.1483.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2009, p.1784.

“Compreende-se agora por que tem efeito curativo o método de psicoterapia que foi aqui exposto. Ele anula a efetividade que originalmente não foi ab-reagida, ao permitir a seu afeto estrangulado o escoamento pela fala, e a leva à correção associativa, impelindo-a para a consciência normal (em hipnose mais leve) ou removendo-a por sugestão médica, como ocorre no sonambulismo com amnésia.” (“Estudos Sobre a Histeria”, Obras Completas Volume 2, Josef Breuer e Sigmund Freud, 1892, p.37)

“A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos desconhece o Estado e a Sociedade Civil infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.


E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal embala no colo
os que têm sede de felicidade e de justiça.


E promete incendiar o país.”
(“Subversiva”, Ferreira Gullar, do livro “Na Vertigem do Dia”, p.33)


“Apple recuperou o primeiro lugar como a marca mais valiosa do mundo após o Google ter interrompido sua supremacia no ano passado, de acordo com o ranking anual BrandZ, compilado pela empresa de pesquisa de marketing Millward Brown.” (site “O Globo”, 27/05/2015, https:// oglobo.globo.com/economia/apple-ultrapassa-google-como-marca-mais-valiosa-do-mundo-afirma- empresa-de-pesquisas-16272469)

“(...) a Apple integrou arte, tecnologia e inovação, mesmo tendo mantido ao menos um vínculo com a economia mais tradicional, sua capacidade de fazer dinheiro e de impor, de maneira muitas vezes sub-reptícia, inúmeros limites.” (“A Economia Artisticamente Criativa”, Xavier Greffe, p.15)

7“Trata-se essencialmente de indústrias culturais que souberam, na maior parte dos casos, progredir qualquer que fosse a conjuntura e às quais se acrescentam as indústrias quase culturais, isto é, indústrias nas quais os ativos culturais são mobilizados não para produzir bens culturais em si, mas produtos cuja dimensão cultural conta ao lado de sua tradicional dimensão funcional ou utilitária, tal como a moda, a arquitetura, os brinquedos, a publicidade etc.” (“A Economia Artisticamente Criativa”, Xavier Greffe, p.17)

8“18a Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia 2017-2021”, PricewaterhouseCoopers.

9Famosa e provavelmente fictícia frase atribuída a Freud por Lacan, quando na ocasião de sua primeira visita aos EUA em 1909 para conferências na Universidade de Clark, “eles não sabem que lhe estamos trazendo a peste” (“A Coisa Freudiana”, Escritos, Jacques Lacan, p.404), conforme afirmado por Roudinesco, “Consegui estabelecer que Freud jamais pronunciara essa frase e que Jung jamais tocara nessa história de peste com ninguém. Quando chegou aos Estados Unidos, em 1909, escoltado por Jung e Ferenczi, ele simplesmente afirmou: ‘Eles ficarão admirados quando souberem o que temos a dizer.’ (“Lacan, a despeito de tudo e de todos”, Elisabeth Roudinesco, p. 102)

10“Em meados dos anos 1970 crescia uma cultura eminente dos guetos de Nova York, algo que não podia ser controlado: vinha de imigrantes hispânicos e negros excluídos e discriminados, em meio a muita violência, muitas drogas e diversos problemas de uma grande cidade, cenário ideal para o despertar de algo novo, capaz de mudar as coisas. Surge a arte do graffiti que, somada à popularização da cultura hip-hop, se espalhou pelo mundo e tem seu reconhecimento entre milhares de artistas jovens, às vezes anônimos, assim como artistas maduros e renomados.” (“Graffiti Fine Art”, Binho Ribeiro, p.6)

11“Aos sábados, na hora do almoço, é possível ver várias duplas perto do jardim, sentados em cadeiras de praia, sob a sombra de árvores, conversando. Não parece, mas é uma sessão de terapia.” (“Grupo Oferece Sessões Gratuitas de Psicanálise na Praça Roosevelt”, site A Vida no Centro, 13/09/2017, http://avidanocentro.com.br/cidades/grupo-de-psicanalistas-oferece-sessoes- gratuitas-na-praca-roosevelt/)

12“Então me tornava ainda mais insistente, ordenava aos doentes que se deitassem e fechassem deliberadamente os olhos para se ‘concentrar’, o que ao menos resultava em certa semelhança com a hipnose. Tive assim a experiência de que sem qualquer hipnose emergiam novas e mais recuadas lembranças, que provavelmente diziam respeito a nosso tema. Tais experiências deram-me a impressão de seria de fato possível trazer à luz, por mera insistência, as séries de ideias patogênicas que sem dúvida havia. E como essa insistência custava-me esforço e sugeria-me a interpretação de que eu tinha uma resistência a vencer, esse estado de coisas prontamente converteu-me para mim na teoria de que através do meu trabalho psíquico tinha de vencer uma força psíquica que se opunha, no paciente, a que as ideias patogênicas se tornassem conscientes (fossem lembradas). Uma nova compreensão pareceu então abrir-se para mim, quando me ocorreu que esta devia ser a mesma força psíquica que havia concorrido para a formação do sintoma histérico e impedido então que a ideia patogênica se tornasse consciente.” (“Estudos Sobre a Histeria”, Obras Completas Volume 2, Josef Breuer e Sigmund Freud, 1893, p.377)

13“Desde que exista em algum lugar o sujeito suposto saber há transferência.” (“Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”, Seminário 11, Jacques Lacan, p.226)

14“Outra vantagem ainda da transferência é que, nela, o paciente produz perante nós, com clareza plástica, uma parte importante da história de sua vida, da qual, de outra maneira, ter-nos-ia provavelmente fornecido apenas um relato insuficiente. Ele a representa diante de nós, por assim dizer, em vez de apenas nos contar.” (“Esboço de Psicanálise”, Obras Completas Volume 23, Sigmund Freud, 1938, p.190)

15“Quem, desse sujeito suposto saber, pode sentir-se plenamente investido? Não é aí que está a questão. A questão é, primeiro, para cada sujeito, de onde ele se baliza para dirigir-se ao sujeito suposto saber. De cada vez que essa função pode ser, para o sujeito, encarnada em quem quer que seja, analista ou não, resulta da definição que venho lhes dar que a transferência já está então fundada” (“Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”, Seminário 11, Jacques Lacan, p.226)

16“É estranho né? Mas, para mim, o que é realmente estranho é, eu me lembro de compor essas coisas, que era tão pouco, pouco guitarra, pouco piano, um pedaço de papel e lápis, um envelope. ‘Sargent Pepper’ ou alguma coisa. Era um processo tão simples, e veja o que aconteceu.” (“The Beatles Love - All Together Now - A Documentary Film - The Beatles - Cirque Du Soleil”, The Cirque Apple Partnership, 2008)

17Bienal Contemporânea de Coimbra, “Anozero, Curar e Reparar”, 2017, Delfim Sardo, Curador- geral, Luiza Teixeira de Freitas, Curadora-adjunta, http://anozero-bienaldecoimbra.pt/sobre/

domingo, 4 de dezembro de 2016

PELO ESCURO DOS OLHOS TEUS



"Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar

Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar” [1]

É comum ouvirmos frases românticas de amor associadas a olhos e olhares. O sujeito enamorado percebe nos olhos da pessoa amada a segurança de ser correspondido ou a ameaça da perda, decifrados ali, na ausência de qualquer palavra. Olhos se mostram meios poderosos de comunicação, onde a mensagem se transmite mesmo sem querer.

Pesquisadores americanos estudam há anos a comunicação involuntária pelos sinais da face. O professor Paul Ekman [2] da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), pesquisador e consultor desde políticos a animadores dos estúdios de desenhos Pixar, foi capaz de catalogar quarenta e três tipos de movimentos musculares da face e associá-los a sentimentos de medo, angustia, felicidade, perda, entre outros.  Segundo seus estudos, o sujeito registra sentimentos via micro sinais musculares em sua face, mesmo quando deseja aparentar algo diferente. Sentimentos disfarçados por palavras em fala ou discurso, se revelam  imediatamente fantasiosos por seu rosto, que de alguma forma revela algo diferente.

O que pode parecer algo restrito aos apaixonados, mentirosos ou às necessárias adaptações à vida cerimoniosa em sociedade, requer uma análise mais atenta. Mesmo em tempos de liberação sexual, é comum ouvirmos relatos de casais que se relacionam sexualmente às escuras. Parece que para eles, mesmo no momento dito mais íntimo, é necessário proteger seus olhos de ver ou de ser visto, que mistérios além do corpo nu poderiam ser revelados pelo entre olhar?

O olhar em sua potência é companheiro do sujeito há longa data, posterior à audição que está presente ainda no pre-nascimento mas, diferentemente desta, é capaz também de ser ativo e se fazer comunicar. O olhar deste cedo está a decifrar e ser decifrado.

Entretanto, esse decifrar imagético segue caminhos próprios. Pesquisas neurológicas recentes, indicam que a imagem e a linguagem transitam por áreas diferentes do cérebro humano e que quando uma imagem é decifrada pela linguagem, algo se perde.

A fim de tentar se verificar esta hipótese, foi realizado um teste [3] onde era apresentada uma imagem ao sujeito testado, que uma vez memorizada, deveria ser reconhecida e selecionada em um outro grupo. Verificou-se que quando era solicitado que a pessoa, antes de buscar a réplica da imagem original, descrevesse em palavras a imagem memorizada, ela tinha reduzida sua taxa de acerto se comparada ao cenário onde o sujeito testado, não traduzia a imagem em palavras antes da busca. Algo se perdia pelo processo de decodificação entre imagem e palavra e depois no caminho inverso, palavra e imagem.

O dito popular, anteriormente aos cientistas, já nos dava pistas desse caminho. É comum ouvirmos em momentos especialmente tocantes alguém dizer “não tenho palavras para expressar”, onde o sujeito falante reconhece que qualquer tentativa de verbalização seria redutora. Ou ainda na cena final do filme “O Poderoso Chefão III” quando o personagem vivido pelo ator Al Pacino nos oferece alguns segundos de um silêncio desesperado ao constatar a morte de sua filha, não há palavra que seja suficiente.

A linguagem tão importante na constituição do sujeito, de alguma forma castra a experiência em sua tradução. A imagem traduzida toma outro lugar, nem sempre tão próximo a experiência original.

A castração da experiência pela palavra em alguns casos pode ser limitante e redutora, mas de outra forma também protege quem vê e a vive. Uma experiência comunicada em palavras pode ressignificar a sua história original e também proteger contra algo da má experiência. Exemplo disso, é o recurso terapêutico de vivências e relatos de pessoas vítimas de um estresse pós traumático. A expressão do mesmo em palavras escritas ou faladas é vivida como algo redutor e ressignificador do trauma original. Na vida cotidiana é comum nos depararmos com o caso clássico do sujeito abandonado em uma relação amorosa, capaz de ocupar os ouvidos dos amigos mais próximos com infinitas repetições da sua mesma história de desilusão. De alguma forma, o repetir em palavras torna a experiência, pouco a pouco tolerável e, em algum tempo depois, diferente e até assimilável.

Se como pessoa adulta ainda nos surpreendemos com o poder das relações com outros e suas consequências quando ausentes do códigos e defesas da fala, o que dizer então da criança ainda pequena, carente desta alternativa, que vive suas experiências em carne viva?

Na ausência da palavra, a criança no seu primeiro ano de vida, sobrevive às custas de seus recursos anteriores à linguagem. O olhar, tato, sensações, sons e vozes, naquele momento são seus instrumentos de interação com o mundo interior e exterior, que no início ainda parecem confundidos.

Absolutamente depende de outros, a criança pouco a pouco aprende a decodificar, ainda sem o atalho da palavra, necessidades, desejos e sentimentos próprios e posteriormente dos outros que a cercam.

Cenas de crianças em interação com seus cuidadores, mãe ou quem venha exercer este papel, nos faz perceber que há algo mais no sorriso ou olhar da criança com seu par. Ainda não distraída pela linguagem a criança se abastece do que consegue capturar pelos seus meios e assim interage. Cuidador e criança, quando em sintonia, são capazes de longas conversas sem nenhuma troca de palavras.

O psicanalista René Spitz em seus estudos [4] com crianças órfãs, num cenário de abundância de demandantes e severas limitações de recursos humanos, pôde verificar que mesmo as cuidadas tecnicamente com recursos hospitalares, muitas vezes não eram capazes de sobreviver. As necessidades de subsistência atendidas com alimentação, limpeza e acompanhamento médico, não eram suficientes.  Na ausência de recursos e na consequente falta do afeto amoroso do cuidador como um chamado à vida, a criança pouco a pouco se fechava em si própria e por fim morria.

O afeto amoroso pelo olhar, tato, cheiro, voz do cuidador de alguma forma seduz o bebê à vida, oferecendo um caminho sustentado e decodificado a quem está ameaçado e dependente num lugar estranho a si.

O bebê abastece-se do que captura por seu olhar ainda primitivo e não educado pela palavra. Neste lugar, sem as distrações e conforto da linguagem, está exposto à experiência bruta, que se por um lado é genuína, por outro, ainda não é passível dos recursos atenuantes da simbolização. Percebemos as pistas desta experiência quando o bebê em um colo é capaz de dormir tranqüilamente, enquanto que em outros, agita-se e chora incomodado por algo que não sabemos como nomear. A seu modo, ele é capaz de perceber o que recebe e com seus parcos recursos rejeitar ou não o que lhe é oferecido.

Entretanto, como absolutamente dependente, o bebê quando exposto à experiência bruta e dolorosa tem poucas alternativas de saída. Muitas vezes seu algoz é também sua única possibilidade ou mesmo esperança de socorro, mas e que dizer quando ele não está disponível para salvá-lo?

O cuidador da criança abatido por algo que o debilita, uma doença grave, um luto severo ou qualquer outro impedimento que o impossibilite de exercer sua função amorosa junto ao bebê, pode expô-lo à situação do intolerável. Aquele pequeno ser, ainda com poucos meios, quando apresentado ao sentimento bruto e sem cortes do sofrimento do seu cuidador, experimenta algo do vazio.

Não há disfarce, os recursos da vida em sociedade largamente utilizados para uma interação equilibrada e aparentemente saudável na relação entre adultos, não se prestam ao bebê. Camuflagens da linguagem ou do trato social não são acessíveis a ele, que se limita a experiência bruta da relação com a mãe ou seu cuidador.

A mãe precária pelo seu sofrimento intenso é percebida pelo bebê sem atenuantes. A expressão da face, a frieza do toque ou o seu olhar sem brilho, escuro, apresentam a experiência da quase morte ao bebê. Tragado por esta, tentará ainda reclamar por uma mudança a quem o embala, mas muitas vezes essa alternativa não está disponível ao sujeito abatido pela dor extrema. Nesse caso, não há rota de fuga, todos caminhos levam àquela mãe aparentemente funcional e viva aos olhos dos que a cercam, mas que ao seu filho se mostra em sua essência pura, morta [5]. Ao bebê, ainda monocórdio em suas possibilidades de interação, cabe somente a experiência bruta, por pior que ela possa se apresentar.

A vítima busca em seu agressor a saída, mas do outro lado não há resposta possível. O sujeito enlutado vive a morte de algo em si e é somente isso que ele pode responder, independentemente do chamado e de quem o chama.

O pedido de escape repetidamente feito e não atendido a alguém incapaz de fazê-lo, direciona o solicitante à única alternativa que se apresenta: repetir mesma nota que escuta. Tal qual metrônomos em ritmos diferentes, que quando distribuídos por um plano com movimento livre, acabam por se alinhar magicamente em um mesmo ritmo temporal, o bebê responde com mortificação ao seu cuidador mortificado.

Esta posição de alguma forma gera pertencimento e lugar a alguém que como absolutamente vulnerável não tem opção de escolha. A quase morte ainda é uma alternativa à morte efetiva, no entanto a experiência agônica é por demais dolorosa e cobra seu preço.

O tempo passa e o bebê, amadurecendo, é apresentado a outras  alternativas, interações e caminhos que por fim abrem possibilidades de escape da posição inicial, mas o sofrimento anterior deixa suas marcas. É preciso se livrar daquela parte sem vida, proprietária e causadora de tanta dor e seguir em frente. Como um soldado que na esperança de sobreviver abdica de um membro necrosado, a criança cinde algo de si e investe no que lhe sobra.

É comum conhecer pessoas, que passaram por este tipo de experiência, operativas quando adultos. Muitos inclusive com destaque e uma certa super adaptação à sociedade, apresentando habilidades ditas especiais nos seus principais talentos. Agem como alguém que, tendo dificuldades na visão, acaba por hiper sensibilizar sua audição como recurso compensatório à limitação original.

O melhor desenvolvimento de recursos funcionais, mascaram um sujeito marcado por um severo sofrimento anterior. A alternativa de sobrevivência viabilizou sua sobrevida, no entanto, a capa funcional desenvolvida, apesar de sua aparente eficiência, serve principalmente como camuflagem protetora de um mundo interno absolutamente arcaico e vulnerável.[6]

A super adaptação funcional monopoliza e consome a vida do sujeito, já que fora desta  arena ele estaria novamente exposto ao terror agônico, seu companheiro de toda vida. Viver às custas de engenhosas limitações também causa esforço e sofrimento em uma existência cada vez mais restrita.[7] De qualquer forma, parece melhor ficar aprisionado às claras, do que a ameaça de se perder às escuras dos primeiros tempos.

Entretanto, não há defesa intransponível. O curso da vida reserva eventos inesperados ou de complexidade superior, que pressionam e expõem limites e fragilidades. Neste momento, aquele sujeito sobrevivente e aparentemente adaptado, como parede oca, se desmorona ao primeiro sopro de um vento um pouco mais forte, revelando novamente a criança desprotegida, vulnerável e quase morta.


Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista
marcospaimcfonteles@gmail.com






[1]  Trecho de “Pela Luz dos Olhos Teus”, T. Jobim.

[2]  “Facial Action Coding System”, P. Ekman e W. V. Friesen.

[3]  “Thoughts beyond Words: When Language Overshadows Insight” J. W. Schooler, S. Ohlsson e K. Brooks.

[4]  “O Primeiro Ano de Vida”, R. A. Spitz.

[5]  O psicanalista A. Green explora especialmente esse tema no seu texto “A Mãe Morta” de 1980.

[6]  “Só na presença dessa mãe suficientemente boa, pode a criança iniciar um processo de desenvolvimento pessoal e real. Se a maternagem não for boa o suficiente, a criança torna-se um acumulado de reações à violação; o self verdadeiro da criança não consegue formar-se, ou permanece oculto por trás de um falso self que a um só tempo quer evitar e compactuar com as bofetadas do mundo.” (Extraído do texto “O relacionamento inicial entre uma mãe e seu bebê”, de D. W. Winnicott de 1960)

[7] “toda forma de psicopatologia, seja extrema ou sutil (e universal), pode ser pensada como representação de uma forma de autolimitação inconsciente da capacidade de vivenciar estar vivo enquanto ser humano. A limitação da capacidade de esta vivo pode se manifestar de inúmeras formas, até mesmo com a constrição da amplitude e da profundidade de sentimentos, pensamentos e sensações corporais, restrição da vida onírica e de reverie, um senso de irrealidade nas relações consigo próprio e com outras pessoas, ou com o comprometimento da capacidade de brincar, de imaginar, de usar símbolos verbais e não verbais para criar e ou representar a própria experiência. Não só aceitamos. mas adotamos essas e outras limitações da nossa capacidade de estar vivo, quando a possibilidade de estar plenamente vivo como ser humano implica uma forma de dor psíquica que tememos não suportar. Ao adotarmos essas formas de desvitalização psíquica, sacrificamos parte de nós mesmos em troca da sobrevivência do todo, mas que o ‘todo' consumiu grande dose de vitalidade no processo.” (Extraído do texto “Sobre a arte da psicanálise” de T. H. Ogden)

sábado, 23 de abril de 2016

INÚTIL NECESSÁRIO


Quando a razão moderna libertou o homem do divino e aterrou as questões de Deus, o mundo pareceu finalmente explicado, as lacunas ainda existentes, aos poucos seriam esclarecidas pela ciência. Tudo era somente uma questão de tempo, investimento e paciência. Estava próximo o mundo inteiramente domesticado, onde a ciência o explica e o dinheiro tudo viabiliza.

Neste cenário de aparente completude, em caminho oposto às chamadas ciências duras, a filosofia, as artes e a nascente psicanálise deram um passo adiante e adicionaram complexidade e graus de liberdade à equação aparentemente resolvida.

Neste contexto, questionando e desconstruindo o aparentemente pronto, o movimento pós-moderno buscou o outro lado de dogmas e modelos pré-formatados. A arte simplesmente seguiu sua vocação de ir além, tal como criança que se diverte ao desmontar seus brinquedos curiosa em conhecer os mistérios escondidos no avesso, o artista nos expõe a algo mais.

Os exemplos foram variados: a pintura abstrata; o free jazz; as performances artísticas; o cinema nouvelle vague e outras diversas formas de expressão deram um passo adiante. Parecia que a fronteira havia avançado um pouco mais longe e o controle mostrava-se novamente limitado.

A busca ao pós-moderno é cara e laboriosa. O trabalho de desconstruir exige um cuidadoso esforço de construção prévia, que na maioria das vezes não permite atalhos. Parece estranho o músico que emite sons dissonantes ou estridentes no free jazz, ao mesmo tempo ser capaz de tocar peças de difícil execução da música convencional, ou um pintor capaz de produzir quadros tecnicamente impecáveis preferir produzir manchas ou borrões aparentemente sem sentido.

A guitarra em chamas, antes tocada à exaustão pelo virtuoso, em muito pouco se parece ao objeto destruído pela criança raivosa. A obra que se apresenta essência e minimalista, apesar de semelhante, em nada se compara ao primitivo ou infantil. O trabalho do artista de vanguarda definitivamente não é obra de criança ou preguiçosos.

A obra finalizada posiciona-se como algo sem função ou aplicação definida, é o inútil que abre espaço ao desconhecido, inesperado e instiga o expectador. Cabe a ele deixar-se seduzir e também se expor. Longe de um caminho simples ou definido, apresenta-se sem contorno, um percurso por trilhas sempre desconhecidas.

É necessário ao expectador também trabalhar, não se trata somente de receber ou contemplar de forma passiva, é preciso esforço e sustento ao sujeito que a obra instiga e desequilibra.

Perceber o estranho e expor-se ao vazio que destrói conceitos e sentidos preconcebidos, nos reapresenta à ignorância e enfraquece redes de segurança cuidadosamente elaboradas ao longo de nossa própria história. A vertigem do vazio força o movimento e a expansão, mas o combustível da angústia por vezes é intolerável e defesas dificultam ou mesmo paralisam o movimento.

Defesas enfraquecidas abrem flancos por onde antes o crescimento era bloqueado, mesmo a que se faz vitoriosa no embate com o que a questiona, é impactada. Quando instigada, ela se faz necessariamente mais forte e custosa, causando sofrimento, algumas vezes, bem superior ao que quer proteger. No limite, a dor leva o sujeito a buscar ajuda, também aí a arte cumpre sua missão.

No entanto, nem sempre é assim. Artista, obra e expectadores estão inseridos em uma sociedade, que deseja ser explicada pela razão e realizável pelo dinheiro, sem falhas ou ineficiências. Não sem motivo, agentes estão sempre atentos às necessidades que possam gerar oportunidades e ganhos.

A arte pós-moderna em suas digressões, por vezes parece hermética, abrindo espaço à sua digestão por especialistas que decodificam seus mistérios e preenchem vazios. O incompreensível e sem sentido incomoda e requer esforço do expectador, mais fácil se defender e creditá-la a algo restrito a alguns iniciados.

O capital vende o conforto e pertencimento aos que podem pagar pela digestão terceirizada e o visto de sujeito, se apresenta como atalho desviante de angústias e continente de escapamentos. Se posso pagar, por que não usar as facilidades disponíveis?

A produção artística também pode ser otimizada: parece não haver sentido em investir esforço na construção de algo singular a ser seguidamente desconstruído. A eficiência industrial permite ganhos que podem e devem ser capturados. O trabalho oportunista, mascarado pela liberdade criativa e referendado por decodificadores habilitados e diretamente interessados, cortam esforço e geram eficiência e produzem arte consumível. 

A desconstrução também interessa à lógica mercantilista, remunerar e reforçar a substituição sem limites, soa como música aos ideais de um mercado em eterna expansão. A forma mais eficaz de crescer é simplesmente descartar o obsoleto e abrir espaço à troca pelo novo.

Oferta de conforto e pertencimento, mercado em expansão permanente e geração de lucro a agentes e produtores, satisfazem com folga as leis de oferta e demanda do mercado. Gentilmente a produção artística pós-moderna é adotada por agentes econômicos, escapa de si e transfigura-se, transformando obra em produto, experiência em entretenimento.

O expectador, anestesiado, agradece e como sujeito movido pelo desejo, confunde o ideal, que preencheria seu vazio, com o produto de consumo, adiando angústias, mas o aparente conforto não se sustenta e demanda cada vez mais analgésicos. O inútil necessário cobra sua ausência.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)
marcospaimcfonteles@gmail.com

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

SUJEITO GENÉRICO


Parece fácil definir o modelo de sucesso para uma carreira no mundo corporativo, são infinitos livros de autoajuda e revistas de negócios indicando o caminho. Basta seguir o padrão: inovador, ágil, flexível, com facilidade para o trabalho em equipe, dedicado e com o único defeito de ser um pouco perfeccionista. Programas de recrutamento e entrevistas parecem um desfile de iguais, mesmas respostas, mesmo discurso, exaustivamente treinado e ensaiado.

Como poderia ser diferente? O ser humano tem a habilidade única de se adaptar a diferentes tipos de comportamento e ambiente, nada mais natural em um cenário competitivo seguir o modelo dito vencedor. Para que buscar ou arriscar alternativas quando o padrão já está ali definido e com instruções passo-a-passo? Os mais talentosos conseguem inclusive incorporar essas características como naturais, mesmo que às vezes estejam bem distantes de suas originais, assumindo um novo personagem - "mas só para o trabalho e carreira" - imaginam eles.

O aprendizado abre oportunidades e viabiliza o desenvolvimento de novas habilidades, portanto vale investir e buscar o modelo campeão. O mercado também está aí para ajudar e transforma-se em uma máquina capaz de produzir profissionais cada vez mais eficientes, produtivos e parecidos. Eles são mais fáceis e econômicos para administrar, especificidades ou características individuais consomem energia, investimentos à singularidade e não viabilizam os tão necessários benefícios da economia de escala.

Homens ou mulheres, não faz diferença, brilho no olho, cabelo alinhado, inglês fluente, MBA, calça caqui ou azul marinho, camisa social esporte, cinto e está completo o padrão andrógino do casual corporativo. Um caminhar atento no horário de almoço pelas principais avenidas empresariais da cidade e estarão todos lá, variações sobre um mesmo tema.

Ótimo então, todos ganham. As pessoas tornam-se mais preparadas, desenvolvem novas habilidades e comportamentos, e as empresas ganham produtividade e eficiência. Segue o ciclo e o processo praticamente se industrializa, atingindo o melhor grau de eficácia na curva de tempo, esforço e resultado.

No entanto, a adaptação gentilmente forçada a um modelo externo e definido por terceiros, ocasionalmente expõe sinais de desgate e desconforto ao ator convidado. Mesmo bonito e elegante, o salto alto também cobra seu preço após algumas horas de festa. O que dizer de um processo que pode consumir anos?

Depois de tanto investimento o esforço não pode ser perdido. "Qualidade de vida!" proclamam os clássicos programas motivacionais. Eles chegam com estímulos diversos: treinamentos, viagens, esportes, voluntariado, arte. Aos protagonistas ainda cabe um investimento a mais via carreira, promoções, bônus, remuneração variável e stock options, que com certeza encerrarão a questão. O espetáculo não pode parar!

Amansado por analgésicos, reconhecimento e premiação, não há problema em continuar. Haverão sempre férias, momentos em casa, cada vez maior e mais elegante, e todo conforto que o último bônus permitiu comprar. Não há problema, afinal o herói corporativo, aquele lá do início: inovador, ágil, flexível, e com o pequeno defeito de ser um pouco perfeccionista; é só instrumento de carreira, usado sabiamente a fim de agilizar o caminho ao sucesso. Passado o crachá pela roleta de saída tudo volta ao original, sem problemas.

Estudo recentes indicam que não é bem assim. A chamada psicologia positiva americana, tem pesquisado, entre outros, o impacto de posturas corporais e atitudes ensaiadas na bioquímica cerebral e seus efeitos na alteração de estados de humor ou sensações. Em artigo(*) recente, os pesquisadores de psicologia social das universidades Columbia e Harvard nos EUA indicam, por exemplo, que uma postura corporal, de braços erguidos em sinal de vitória, é capaz de desencadear processos internos, que no fim geram um sentimento genuíno de autoconfiança. Independente de ser somente uma simulação, os estímulos cerebrais reagem de forma semelhante a um fato realmente ocorrido.

O que então dizer de estar pelo menos oito horas por dia assumindo um personagem, com postura, pensamento e atitude ensaiados segundo um modelo predefinido. Ainda mais sendo prestigiado e premiado conforme sua maior aderência a este. Após algum tempo, parece pouco provável que esse personagem realmente fique restrito à sua aplicação profissional.

O personagem pré fabricado pouco a pouco assume a preponderância e o controle, de coadjuvante passa a protagonista e como tal assume seu papel dominante. Ator e personagem tornam-se um e o que em um primeiro momento era restrito ao ambiente profissional, ultrapassa fronteiras e ocupa novos terrenos.

O inverso também ocorre, buscando proteção contra o risco de invasão da persona corporativa à vida pessoal ou simplesmente cansado de suportar uma fantasia que não lhe cabe, o sujeito assume uma cópia às avessas, não fiel à si mesmo, mas simplesmente um negativo do modelo imposto, quase uma antítese ao vencedor adotado na vida profissional.

Positivo ou negativo, não há diferença, estão repetindo um modelo externo e padronizado conflitante à singularidade humana, onde o sujeito deixa de ser protagonista de sua própria história e é submetido, sem alternativa de escape, a um modelo ideal definido conforme o interesse de terceiros.

Em qualquer situação, com o tempo a estrutura não se sustenta, cedo ou tarde a pessoa esquecida por baixo das várias camadas sobrepostas manifesta-se pelo sofrimento psíquico ou físico, tanto faz.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)
marcospaimcfonteles@gmail.com



(*) Power Posing: Brief Nonverbal Displays Affect Neuroendocrine Levels and Risk Tolerance
Dana R. Carney*, Amy J.C. Cuddy**, and Andy J. Yap*
*Columbia University and **Harvard University
http://www.people.hbs.edu/acuddy/in%20press,%20carney,%20cuddy,%20&%20yap,%20psych%20science.pdf

sábado, 12 de dezembro de 2015

NÃO OLHE PRA FRENTE


Talvez venha da infância. Pequenos à procura de aprendizado, preenchendo lacunas da ignorância, fomos instruídos a completar faltas. Aprender a andar, falar, ler, escrever. Passo a passo completamos cada etapa, que já no instante seguinte nos coloca em movimento à próxima. Uma gangorra que por um breve instante nos mantém na altura máxima, mas que logo a seguir nos empurra novamente ao movimento.

Crescidos já é hora de trabalhar, hora de namorar, hora de casar, hora de ter filhos, netos, hora de não ter hora. Faça isso para obter aquilo. O passo seguinte puxa o passo atual, que por si só parece não existir. Tornamo-nos hábeis em estabelecer projetos de futuros cada vez mais sofisticados, belos e sedutores.  Fica fácil se apaixonar por projeções idealizadas e distantes da complexidade da vida cotidiana. Elas passam a justificar nossas ações e decisões diárias.

A vida transforma-se em uma escada que simplesmente nos leva ao próximo projeto de futuro, que uma vez atingido, nos encaminha imediatamente ao seguinte. Cada pequeno instante torna-se apenas degrau, sem significação ou função própria, somente ligadura entre passos anterior e posterior. Não existe desconectado. Degrau retirado de escada é verbo sem sujeito.

Invertidos, o presente que é, parece imaginado, e o futuro, ainda simples possibilidade, transveste-se de realidade e impõe-se ao presente. O que não existe toma do lugar do que é.

Caminhar sobre um presente vazio é trabalhoso, requer cuidados, cada passo é caro e inseguro, muito cansativo para quem tem toda uma vida pela frente. Melhor então ignorar, olhar para frente e sustentar-se no futuro. Ao aprendiz de equilibrista ensina-se: não olhe para baixo ou para fita, fixe-se no ponto à frente e simplesmente caminhe.

O equilíbrio instável estabelece-se e disfarça o que preferimos não perceber, dá conforto e permite descansar. Melhor agora, sem deter-se na realidade do dia a dia, se entorpecer na certeza de um futuro cuidadosamente delirado. Dias, semanas, anos se passam, tão rápido que percebemos somente quando já se foram e tornaram-se passado distante. Não há como enxergar o que não se pode ver. O olhar para o seguinte é cego ao atual.

No entanto, o futuro que sustenta não existe, é fantasia. É como pensamento que transcrito em palavras, perde sentido e se mostra outro. O planejado finalmente se apresenta, parece um pouco diferente, mas ajustes devem ser aceitos e até comemorados. Surpresas que colorem a vida, justificam alguns. Melhor ser rápido, se ajustar, eleger o próximo passo e se jogar ao próximo cipó. Tal qual Tarzan, é necessário manter-se em movimento, caso contrário tomba-se no vazio.

A vida segue até que o real, se impõe e surpreende com novas situações, muito diferentes do que antes fora planejado. O inesperado pode apresentar-se disfarçado por um rompimento, morte, acidente, divórcio, demissão, tanto faz. Aquele projeto de futuro cuidadosamente construído simplesmente desaparece, mas de fato ele nunca existiu. Não há equação possível a ser imposta ao caos que é resultado de infinitas variáveis combinadas no tempo e espaço, que quando sequenciadas formam o que nomeamos de vida.

O cipó se solta. O futuro deixa de sustentar o presente e cai-se no vazio. Presente dependente de futuro é só passagem, não é ponto de parada. Sustentar-se parece impossível ou por demais doloroso, melhor tentar religar. Como desistir do que custou tão caro? Quantos presentes de ontem, hoje passados, foram pagamento antecipado em nome de um futuro que agora não existe mais. Agimos como criança pequena, que desesperada tenta salvar seu castelo de areia invadido pelo mar.

Diante da perda não cabe atalho, somente luto. Se não, pouco a pouco e sem perceber, voltaremos a construir um novo e ainda mais belo castelo, logo ali onde a areia molhada é abundante, na beira do mar.

(Marcos Paim C. Fonteles, psicanalista)